Viver sóbrio é um saco
Como bem disse o Lobão, aquele do Velho Testamento – não o arremedo que o século XXI nos impingiu –, “nunca tive problema com as drogas, só tive problemas com a polícia”. E essa máxima, meus caros, resume com uma precisão quase cirúrgica a minha relação com o álcool. Nunca, vejam bem, nunca tive problemas com o álcool. Pelo contrário, sempre nos demos às mil maravilhas. E tenho a mais profunda convicção de que, se porventura nossos caminhos se cruzarem novamente, será uma festa daquelas, com direito a confete, serpentina e talvez até umas lágrimas de reencontro.
O problema, o pequeno e insignificante detalhe, é que essa amizade tão sincera e efusiva me impedia de me dar tão bem com o resto do mundo: família, amigos, amores, desconhecidos, o porteiro, o entregador de pizza, o mendigo da esquina. Nunca fui um bêbado violento, agressivo, daqueles que quebram garrafas na cabeça alheia. Longe disso! Eu era do tipo afetuoso, inconvenientemente amoroso, um grude etílico que abraçava forasteiros e enchia o saco pela pura e simples efusão de carinho. Uma espécie de urso panda alcoolizado, mas sem a fofura e com um hálito questionável.
Entretanto, antes tarde do que mais tarde – e que ironia, a vida é cheia delas –, por uma série de eventos que, por si só, renderiam uma sequência de crônicas (e talvez um livro de autoajuda mal-humorado), eu, aos 40 anos, decidi cortar essa velha amizade da minha vida. E é uma daquelas coisas que não se faz aos poucos, como quem desmama um bebê ou tira um esparadrapo. Tem que ter data e hora, um marco, um “nunca mais”. A minha foi 1º de março, dia do meu aniversário. Acordei um lixo irreconhecível, sentindo-me o pior dos seres humanos, e o pior: não era a primeira vez que me sentia assim. Menos de um ano antes, no show da última turnê do Gil, fiz a mesma proeza. Estraguei o show para mim, para minha então namorada e para meus amigos. Ah, a memória afetiva do álcool! Tão seletiva quanto um editor de reality show.
Os olhares de decepção e raiva que recebi no dia do show do Gil e no meu aniversário foram o combustível para a virada. Nunca mais, jurei, quero ver um amigo ou amiga me olhando daquele jeito. É um tipo de olhar que te persegue, que te acusa sem dizer uma palavra, que te faz querer enfiar a cabeça num buraco e só sair quando a civilização tiver sido reconstruída por formigas.
Eis que, ao adentrar o mundo dos sóbrios, percebi uma verdade inconveniente: ser sóbrio neste mundo é chato pra cacete. Você deve estar imaginando que vou reclamar de ter que abandonar os botequins, a vida boêmia e a noite de uma forma geral. Nada disso! Tudo isso tenho mantido sem nenhum problema. Continuo sendo um bom cliente dos bares que sempre frequentei, agora pedindo uma cerveja zero ou uma tônica com limão. O garçom me olha com uma mistura de pena e respeito, como quem diz: “Coitado, mas pelo menos ainda vem”.
Agora, o que é um saco mesmo é não ter mais o álcool como anestesia para a vida. Sabe quando você está curtindo aquela solidão em casa com seu uísque, filosofando sobre a existência e a validade do seu cartão de crédito? Não tenho mais. Chorar abraçado à garrafa de cachaça, lembrando daquele amor que ainda dói como um dente siso inflamado? Não tenho mais. Tomar uma no final do dia para esquecer o chefe que te atazanou o dia todo, transformando-o num mero borrão na paisagem da sua memória? Não tenho mais.
Descobri que o álcool, além de fonte de prazer (e de algumas vergonhas alheias), era meu regulador de humor, meu melhor amigo, meu “cachorro engarrafado”, como diria o poetinha. Agora, me perdoe o trocadilho, a vida sem álcool virou um porre. É um saco ter que lidar com minhas emoções e sentimentos crus, sem filtro, como um adulto funcional, sem a vassoura líquida que me ajudava a varrer tudo para debaixo do tapete. Viver sóbrio, meus amigos, é um saco. Mas, ei, pelo menos ninguém mais me olha com aquele olhar de decepção. E isso, por enquanto, já é alguma coisa.