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A esquina onde moro

Já tentei me encontrar
em empregos com crachá
em camas com promessas
em cidades distantes
em bares que não sabiam meu nome.

Tentei o amor também
desses de novela ruim
com almoços de domingo
e planos para julho
porém julho nunca chega.

Fui pra longe
achando que a resposta estava em algum lugar
ou num outro copo
ou talvez num novo nome —
mas continuo sendo eu.

Hoje, sei onde moro:
numa garrafa meio vazia,
num trago que queima devagar
num silêncio que só responde depois da terceira dose.
moro nas calçadas sujas
com gente que também desistiu de perguntar.

Encontrei abrigo na solidão
porque ela não cobra aluguel
e aceita minha cara feia
meus ossos moles
meus sonhos gastos como sola de sapato velho.

Encontrei um pouco de paz
numa carreira ordinária
num blues desafinado
numa relação efêmera
e num espelho rachado
que ao menos reflete sem julgar.

O mundo queria me moldar.
eu só queria não explodir.
e talvez — só talvez —
me encontrar foi isso:
desistir de me procurar
e aceitar que sou feito dessa bagunça
que só a madrugada entende.

Vinícius Prado