a gente começou rindo
das desgraças alheias,
copos sujos,
fofocas maldosas
e aquela intimidade perigosa
de quem sabe demais.você sabia dos meus fracassos,
dos meus desejos mais impublicáveis,
das mentiras que eu conto
antes de dormir.
eu sabia onde você sangrava
e fingia não doer.éramos parceiros,
sem contrato,
sem promessa,
só a confiança suja
de quem não precisa se explicar.aí, como sempre,
estragamos tudo
do jeito mais bonito possível:
nos apaixonamos.veio o amor intenso,
sem manual,
com beijos atrasados,
lençóis divididos,
corpos cansados
e uma urgência
que parecia eterna.amamos como quem bebe
sabendo que vai dar ressaca.mas o tempo —
esse filho da puta paciente —
mostrou que aquilo
já não nos fazia bem.
muito amor,
muita dor,
pouco ar.então soltamos as mãos
antes que virassem algemas.eu ainda te amo,
e isso não me envergonha.
ainda me dói
mas já não te machuco.espero que o tempo,
esse velho cínico,
transforme esse amor romântico
em outra coisa menos frágil:
um afeto resistente,
sem cobranças,
sem abismos.e que um dia
a gente volte a dividir
as fofocas mais podres,
os segredos mais sórdidos,
as verdades que não cabem
em namoro nenhum.como bons amigos
que já se amaram demais
pra fingir que não sabem
quem o outro realmente é.Vinícius Prado