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O glamour da política!

Quando a gente fala em campanhas políticas, pensa logo em grandes peças publicitárias, marketeiros ganhando milhões, artistas engajados nas campanhas, jantares, churrascos, centenas de cabos eleitorais pagos, enfim a grande “festa da democracia”. Mas quando você faz parte de um pequeno partido de esquerda a coisa é um tanto quanto diferente.

Desde a época da graduação eu comecei a me engajar na militância, fui dirigente em várias gestões de DCE e Centro Acadêmico, e quando você começa a militar de maneira séria, orgânica, percebe que é importante estar organizado em partido político, e nessa mesma época surgia o PSOL. Então desde os idos de 2005 até 2022 militei nesse pequeno partido da esquerda brasileira.

Agora você consegue imaginar de onde vem o dinheiro de um pequeno partido de esquerda que não aceita financiamento de empresas e empresários? Isso mesmo, vem da própria militância, a gente cotizava, fazia rifas, eventos etc. para levantar dinheiro para o partido. Hoje o PSOL ainda recebe uma pequena parte do fundo eleitoral e partidário que fazem muita diferença, mas até 2016 não era assim.

E quem seriam os doidos a saírem candidatos por um partido sem dinheiro e sem estrutura? Nós bravos militantes, normalmente os que tinham estabilidade de concurso público e poderiam se afastar do trabalho sem prejuízos para a campanha, e foi a partir desse critério “extremamente político” que eu fui indicado a candidato a deputado federal em 2014 e 2018.

Em 2014 foi complicado. Sem fundo eleitoral, fizemos uma campanha com 1500 reais, acho que meus 946 devem ter sido os mais baratos da política nacional, agora em 2018, tínhamos o “grande fundo eleitoral” e suntuosos 4.800 reais para a campanha, fora o que arrecadamos. Só a título de comparação, a deputada federal mais votada da esquerda teve 1,3 milhão de orçamento.

Mas isso aqui não é uma análise política, esse contexto é só para quem não é entendido de organização partidária poder entender o contexto dessa história que ocorreu na campanha de 2018. 

Em 2018, além de ser candidato a deputado federal, eu ajudava a coordenar a campanha de um dos nossos candidatos ao senado. Parece algo importante, mas, na prática, eu e o Rodrigo rodamos o Paraná dentro de um celta fazendo campanha praticamente sozinhos. Quando era evento de campanha ao senado, eu me apresentava como assessor dele, e quando era evento de campanha para deputado federal ele era meu assessor. Tínhamos que colocar alguma ‘banca” né? 

Certa vez, era nossa última rodada de viagens pelo interior, estamos em uma cidade do oeste do Paraná, a programação era voltarmos na noite do domingo, porém constatamos que não tínhamos mais verbas para voltar. Isso mesmo: a grana tinha acabado! Lógico que não admitimos isso para nossos correligionários locais e falamos que íamos dormir mais um dia lá por causa do cansaço, e que partiríamos na segunda pela manhã.

Enquanto isso, fizemos contatos com companheiros da nossa direção e informamos a situação: ou alguém fazia uma transferência (não tinha pix ainda), ou a gente ia ter que ficar morando por lá. 

Uma companheira faria o depósito, mas só após as dez da manhã, então comemos o máximo que deu no café da manhã na casa de nossos camaradas anfitriões para economizar na estrada. A sorte foi que, na saída para viagem, um companheiro local resolveu fazer uma contribuição para nossa campanha e nos deu 100 reais, que começamos a administrar entre gasolina e pedágio, teria que dar até às dez da manhã.

Seguimos caminho e, por volta das onze da manhã, paramos em uma cidade em busca de um caixa eletrônico. Nada ainda, seguimos viagem. A essa altura, já não tínhamos mais crédito no celular, então estávamos incomunicáveis.

Uma hora da tarde, um posto de gasolina com caixa eletrônico e nada de cair nosso socorro financeiro. Começamos a fazer os cálculos, e vimos que dava para chegar ainda até Ponta Grossa. Decidimos seguir, mas antes nos demos ao luxo de almoçar um pacote de biscoito de polvilho e uma coca 600ml, divididos entre os dois.

Cinco da tarde, chegamos a uma bifurcação que tínhamos que decidir se íamos até Ponta Grossa ou seguíamos reto para Curitiba. O cálculo era o seguinte: se fossemos a Ponta Grossa, e o dinheiro não tivesse caído, não teríamos como seguir; se fôssemos direto para a capital, havia uma chance de a gasolina que tínhamos não ser o suficiente. Quem se arrisca a ser candidato sem dinheiro, só por uma ideia, não teme a morte! Optamos por seguir para Curitiba.

Foram 300 quilômetros de pura tensão, nem respiramos para não gastar mais combustível. Quando passamos o primeiro pedágio, veio a constatação: vai faltar cinquenta centavos para conseguirmos pagar o último pedágio. Tensão!

Paramos no último posto de gasolina, antes do último pedágio, e nossas opções eram revirar o celtinha e achar uma moeda perdida, ou sair pedindo entre os caminhoneiros uma moedinha para nos ajudar. Mas quem espera em Marx sempre alcança: depois de retirarmos todos os tapetes, e erguermos até o banco traseiro, eis que cai uma moeda de cinquenta centavos e conseguimos seguir viagem.
E o combustível? Acreditem ou não, Rodrigo conseguiu me deixar em casa, e quando estava na esquina da casa dele a gasolina acabou. Graças a Marx era uma descida e ele conseguiu chegar em casa.