Menu fechado

O último ponto

BRRRIIMMM BRRRIIMMM!

O despertador tilintava como um demônio de metal. Eram 5h15. Gerson acordou com o mesmo ódio cego de sempre. Não um ódio de alguém vivo, revoltado — mas um ódio quieto, morto, cansado, que fede a suor velho e pasta de dente barata.

Acordava como quem se afogava. Ainda deitado, já perdia.

Ficava cinco minutos deitado, cronômetro interno na cabeça. Cinco minutos para morrer mais um pouco. Depois disso, levantava como um zumbi com carteira assinada. Escovava os dentes. Lavava o rosto. Vestia-se como quem se disfarça de homem. O café da manhã? Jamais. Preferia dormir trinta minutos a mais do que mastigar um pão duro olhando para o nada.

O ponto de ônibus o esperava com a indiferença dos velhos inimigos. O ônibus vinha. Subia. Sentava, se tivesse sorte. Dormia. Acordava com o segundo alarme — o do fone. Era o alarme da esperança de não perder o ponto. Porque, sim, já perdera. Já passara do ponto, já tomara advertência. Já ouvira sermões de supervisores com sorrisos de plástico e hálito de café queimado.

Às 7h30, o cartão batia. O corpo, não. O corpo ia por obrigação.

Gerson era “operário qualificado”. Era isso que diziam. Ele mesmo já não sabia. O trabalho, antes feito com alguma chama nos olhos, agora era um teatro farsesco. Antes, pensava. Criava métodos, lia manuais, bolava soluções. Tinha o nome em algumas melhorias. Trabalhava com gente. Viu gente aprender, crescer, melhorar.

Hoje, nada disso importava. A fábrica agora era uma máquina mundial, com tentáculos em todos os continentes e cérebros em nenhum. Os métodos vinham prontos de um escritório em outro fuso horário. Todos padronizados. Todos burros. Ninguém queria saber da realidade local, dos trabalhadores, da lógica da produção. Queriam apenas relatórios. Índices. Setas para cima, ainda que a produção fosse para baixo.

A nova tecnologia, que Gerson achava que o libertaria, virou seu capataz eletrônico. Cada clique era medido. Cada segundo era contado. Não importava o pensamento, a lógica, o raciocínio. Importava apenas a produtividade e a obediência.

Ele via tudo piorar. Sabia onde estavam os erros. Sabia o que poderia ser feito. Mas estava proibido de pensar.

E pensar doía.

BRRRRRRAAAAAAAAAM!

O sinal das 18h30 soava como alívio. Mas era um alívio falso. De lá, vinha o inferno de volta: duas horas e meia de ônibus. Trânsito, buzinas, cotovelos alheios. E nem casa, ainda. Parava direto no trailer de cachorro-quente onde fritava carne e fritava a própria alma até uma da manhã.

Gerson, o “qualificado”, agora era chapeiro informal, segundo turno da própria tragédia.

Quando chegava em casa, era só o tempo de tirar os sapatos e cair. No dia seguinte, tudo recomeçava. BRRRIIMMM BRRRIIMMM!

Mas Gerson não era passivo. Não estava completamente entregue. Lutava. Inscrevia-se em cursos, buscava outras áreas. Tentava oportunidades em áreas próximas. Se atualizava sobre carreiras promissoras, mandava currículo.

E fracassava.

Sempre havia um “mas”. O tempo. O dinheiro. A diferença salarial. Os boletos. A pensão do filho. O aluguel. O gás. Tudo isso conspirava para que ele seguisse, ininterruptamente, dentro da esteira rolante da fábrica e da fritadeira do trailer.

Naquela noite, o cansaço veio com gosto de veneno.

Sentou no ônibus. Encostou a cabeça na janela e apagou. O corpo cansado se desligou..

Dormiu.

E perdeu o ponto.

Quando acordou, estava sozinho. O ônibus parado num pátio escuro e silencioso.

— Ô chefe… fim de linha — disse o cobrador, com a paciência que se tem por um cão doente.

Gerson não respondeu. Desceu. Estava chovendo. Não era chuva de novela. Era chuva feia, fria, impiedosa. Uma chuva que batia no asfalto como tapa na cara. 

Não chegaria a tempo no trailer nem por uma ação divina.

Olhou ao redor. Não sabia onde estava. Não reconhecia o bairro, nem a vida. Olhou para as mãos: estavam trêmulas. Molhadas. Tão tristes que davam dó. O corpo doía tanto quanto a alma.

Começou a andar. Devagar. Como se não pisasse no chão, como se estivesse só no mundo.

Atravessou a rua, num impulso.

Um carro freou com um grito de pneus. Outro desviou. O motorista xingou. Uma mulher gritou. Mas Gerson não os via.

Seguiu. Caiu de joelhos no canteiro central da avenida. Ali, no meio do caos urbano, sentou. Molhado. Encharcado. Cansado.

Os carros passavam. As buzinas zuniam. A cidade pulsava como um coração acelerado.

Gerson estava imóvel.

Tomava a chuva como se o abraçasse. Como se ela entendesse o que ninguém conseguia. Sentia. O rosto. O peito. A alma.

Olhos fixos no nada.

Não chorava. Não sorria. Não falava.

Sentia tudo.

E não reagia a nada.