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Quando dois sonsos se amam!

Ah, o amor! Essa entidade traiçoeira que nos faz flutuar em nuvens de algodão-doce e, de repente, nos joga num pântano de incertezas existenciais. O início, claro, é sempre um deslumbre. A gente encontra aquela pessoa que parece ter saído de um catálogo de “Almas Gêmeas em Promoção”, e a certeza de que tudo dará certo é tão inabalável quanto a fé de um torcedor roxo no seu time. Cada sorriso bobo, cada olhar trocado, cada suspiro que escapa sem querer, tudo isso é prova cabal de que o universo conspirou a nosso favor, e que o outro lado da equação está tão apaixonado quanto a gente – ou, pelo menos, tão confuso quanto.

E foi nesse turbilhão de emoções, que me vi enredado. A musa da vez? Uma amiga de longa data, dessas que a gente já conhece desde o histórico de paixões e fiascos da vida até os gostos para pizza. O destino, com seu senso de humor peculiar, resolveu que seria divertido nos colocar no ringue do romance. E, como em toda boa comédia romântica, o dilema surgiu: quando, afinal, um “lance” vira namoro? Ou, mais importante, ele vira namoro?

Nossa história, como um bom vinho que ainda não decidiu se quer ser tinto ou rosé, ia se construindo. A amizade prévia já garantia uma presença constante na rotina um do outro. De repente, sem aviso prévio, estávamos vivendo uma rotina de namorados, mas sem o rótulo, sem o contrato, sem a certidão. Eu, que sou o tipo de pessoa que já planeja o nome dos filhos no segundo encontro, comecei a suar frio com essa indefinição. A cabeça a mil, as frases ensaiadas no espelho, o medo de ouvir um “não é bem isso” ou, pior, um “você está confundindo as coisas”.

Mas a coragem, misturada com uma boa dose de ansiedade e um pingo de desespero, me impulsionou. Num momento de lucidez (ou seria loucura?), joguei a bomba: “Olha… estamos há um tempo juntos, na prática já levamos uma rotina de casal de namorados, acho que precisamos definir que relação estamos tendo?”. Claro, na vida real, a frase saiu mais como um balbuciar, com gaguejadas e pausas dramáticas, dignas de um Shakespeare amador.

Ela, pega de surpresa numa sexta-feira à noite, provavelmente sonhando com iFood e Netflix (e talvez um pouco de romance, quem sabe?), soltou a frase que ecoaria na minha mente pelos próximos dias: “Eu quero namorar com você, Vinícius, mas não agora!”. Aquilo foi como uma navalha, mas uma navalha de plástico, dessas que a gente usa para cortar bolo de aniversário. Nunca fui dispensado de maneira tão… sonsa. Minha mente entrou em colapso: “Ela está terminando?”, “Será que só quer sexo sem compromisso?”, “Ela realmente disse isso?”. Mas, como um bom jogador que não quer perder a partida, respirei fundo, sorri (um sorriso meio torto, confesso) e devolvi a bola: “Tudo bem! Quando você quiser namorar comigo, me avise…”. Por um segundo, pensei em perguntar se poderia me considerar solteiro até lá, mas achei que seria provocação demais. E, convenhamos, prezo muito pela minha integridade física.

A sexta-feira virou sábado, o sábado virou domingo, e o assunto ficou pairando no ar, como uma nuvem de incerteza. Até que, no domingo à noite, naquele momento melancólico em que o fim de semana agoniza, enquanto trocávamos carinhos e juras românticas (dessas que só os recém-apaixonados trocam), ela soltou a pérola: “Viní, acho que eu quero namorar com você!”.

“Epa! Peraí!”, pensei. “Me dispensa de maneira sonsa e agora vem com ‘eu acho que quero’? Está querendo ensinar sonsiane a ser sonsiane?”. Minha resposta, a única possível para manter a dignidade (e talvez um pouco de mistério), foi: “Você acha? Então o dia que tiver certeza, me avisa que a gente começa o namoro!”.

E, por mais incrível que pareça, foi ali, naquele exato momento sonso, de humor e incerteza, que o namoro começou. Prova de que o amor, às vezes, é simples mas os sonsos complicam.