Já ouviram aquela máxima que é famosa nos debates pedagógicos “como se ensina é mais importante do que o que se ensina”? Então hoje vou lhes contar como aprendi isso na prática, mesmo antes de ter lido ou escutado essa tão conhecida frase pela primeira vez.
Foi na minha época de graduação, era um jovem estudante, terceiro ano da graduação, iniciando meus estágios de docência. Foi nesta época que descobri que gostava de dar aula, até se iniciarem os estágios, eu não tinha a menor vontade de dar aula, mas quando comecei a ter contato com os alunos, percebi que era aquilo que queria fazer.
Mas enfim, a questão aqui é sobre minha primeira grande lição pedagógica, fui fazer meu estágio em uma escola de periferia, zona portuária de Paranaguá no litoral do Paraná, escola com pouca estrutura, espremida ente cilos, galpões, armazéns. A escola tinha sons próprios, além daqueles que toda escola tem, pois as ruas que a ladeavam eram lotadas de caminhões, com suas buzinas, freadas, fechadas e brigas de trânsito, o trem passava o dia todo a poucos metros da escola com aquele característico apito a cada cruzamento, esses barulhos me incomodavam, mas não aos alunos, professores e funcionários que já haviam se habituado a eles.
Os alunos eram como são os alunos de qualquer escola de periferia desse Brasil afora, e quiça do mundo, tinham aqueles com problemas de aprendizagem que nunca tiveram um diagnóstico e um tratamento adequado, aqueles com problemas familiares, problemas financeiros, problemas de saúde, e sobre tudo muito carentes, tanto materialmente quanto carentes de atenção, tratados como números num sistema que funciona como uma máquina de moer carne, triturando as poucas perspectivas que eles poderiam ter na vida.
Já era minha segunda semana de estágio, havia começado com as turmas da manhã no ensino médio, com um bom professor, envolvido nas questões sindicais, se preocupava em tentar fazer com que os alunos percebessem que a importância de se estudar história estava em ter condições de compreender a sociedade em que vivemos e poder intervir nela, mas já bastante adaptado ao sistema e sem acreditar em perspectivas de mudanças, suas aulas acabavam sendo pouco produtivas e suas reflexões ecoavam muito pouco entre os alunos.
Mas nessa segunda semana eu começaria com as turmas da tarde, anos finais do ensino fundamental, era meu primeiro contato com turmas desse nível, eu estava na etapa dos estágios de observação, então basicamente minha função era só assistir as aulas, e fazer relatórios sobre os métodos e práticas dos e das professoras observadas.
Chego na escola logo após o almoço, aquela aglomeração na sala dos professores, todo mundo falando ao mesmo tempo, uns reclamando que não tiveram tempo de almoçar, outro que nem havia saído da escola e já tinha a primeira aula, outros reclamando que logo na primeira aula teriam a turma do “fulano terrível”, eu chego ali e mal notam a minha presença, até que sou abordado pela pedagoga, que me leva para me apresentar a professora que eu acompanharia.
A professora, era uma senhora de mais de 60 anos, que se houvesse um mínimo de justiça no nosso sistema previdenciário já estaria aposentada há uns 10 anos ao menos. Havia se formado há mais de 40 anos, e sua especialização mais recente já completava 20 anos, era uma senhora cansada, desgastada, com problemas de saúde, que dava aula em três turnos há mais de 10 anos, sem tempo para estudos ou saber o que se debatia no mundo sobre educação, e que havia sido engolida pelo sistema educacional, que tritura não só as perspectivas dos alunos, mas também as dos educadores.
Ela me recebeu de forma simpática, disse que precisava pegar algumas coisas ainda e pediu para que eu fizesse o favor de me dirigir até a sala da quinta série D (naquela época ainda era quinta série, hoje seria um sexto ano), me apresentasse e ficasse “cuidando” da turma até ela chegar. Ao entrar e me apresentar logo se formou uma roda em torno de mim, crianças curiosas sobre aquele ser estranho que chegava ali, queriam saber meu nome, onde estudava, se tinha filhos, namorada, meu aniversário, e eu usei a curiosidade deles par conseguir controlar o ambiente até a chegada da professora.
Quando a professora chega, eu me dirijo para uma carteira no fundo da sala, e os alunos começam a “ferver” como qualquer quinta série, em qualquer escola, todos falando alto, ao mesmo tempo, alguns em pé, outros na porta olhando o movimento no corredor e nas outras salas (parecido com a sala dos professores de minutos antes), e a professora num misto de vergonha pela minha presença e ao mesmo tempo sentindo uma necessidade de mostrar autoridade, aos berros decreta: “CALEM A BOCA!!! TODOS!! JÁ!!! SENTADOS!!! NÃO QUERO OUVIR MAIS NENHUMA PALAVRA!!! QUEM MANDA AQUI SOU EU!!!!”
Depois de alguns segundos, que pareceram minutos, de um silêncio constrangedor, onde algumas crianças expressavam no olhar medo e pavor, e outras um olhar de quem estava se sentindo desafiado a aprontar mais, a professora respira fundo, calmamente caminha até sua mesa, pega um giz se dirige a lousa, escreve a palavra “DEMOCRACIA” em letras garrafais, e anuncia a turma “Hoje vocês vão aprender o que é democracia”….