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A Iniciação aos Quarenta: Velórios e a Nova Contagem da Vida

Os quarenta, dizem, são os novos vinte. Uma balela, digo eu, que mal pisei na casa nova e já me sinto mais próximo do inevitável, não pela vitalidade, mas pela frequência de certos eventos sociais. O primeiro mês dos meus quarenta anos não veio com a crise existencial prometida pelos filmes americanos, nem com a epifania de uma nova juventude. Não, os meus quarenta chegaram com um convite para o baile de máscaras da mortalidade, onde a fantasia obrigatória era o luto e a trilha sonora, o silêncio constrangedor dos reencontros em capelas.

Em menos de vinte dias, o destino, com seu senso de humor peculiar e sádico, enfileirou uma meia dúzia de partidas. Não eram figuras distantes, daquelas que a gente lamenta com um “que pena” genérico. Eram pessoas próximas, queridas, com quem se dividiu risadas, segredos, sambas e copos de bebida. Cada notificação de falecimento em grupos de WhatsApp de amigos ou de supetão em um stories foi um soco no estômago, um lembrete incômodo de que a fila anda, e anda rápido, especialmente quando você está nela.

Lembro-me de quando os convites eram para batizados. Aquela festa da vida, com cheiro de talco, choro de bebê e a promessa de um futuro que se estendia infinito. As conversas giravam em torno de fraldas, noites mal dormidas e os primeiros passos. Agora, as conversas são sobre lembranças, doenças e a inevitabilidade do fim. A gente se encontra, troca olhares cúmplices de cansaço e tenta encontrar algum consolo em alguma lembrança que ainda parece recente na memória.

Agora a caneta pesa na mão como uma pena afiada e com seu corte cirúrgico para as ironias da vida, expõe a inversão de prioridades sociais. De como a gente passa a frequentar mais velórios do que batizados, e de como essa transição é um rito de passagem silencioso, mas estrondoso. É a vida nos dizendo, sem meias palavras, que a juventude é uma bolha que estoura, e que a maturidade é a arte de colecionar perdas e tentar, ainda assim, encontrar algum sentido na bagunça.

Os quarenta, para mim, chegaram não como a idade do lobo, mas como a idade do luto. Uma iniciação brutal, um batismo às avessas, onde a água benta foi substituída por lágrimas e a promessa de vida, pela certeza da finitude. E enquanto eu tento processar a ausência de tantos, a única certeza que me resta é a de que, a partir de agora, a agenda social estará mais preenchida por despedidas do que por boas-vindas. E que, talvez, o verdadeiro desafio dos quarenta seja aprender a dançar nessa valsa melancólica, com um sorriso triste no rosto e a esperança de que, entre um velório e outro, ainda haja espaço para um brinde à vida, por mais efêmera que ela seja.