Sabe aquela hora em que a vida vira um turbilhão de abas abertas no navegador da mente? Aquela pilha de “coisas pra pensar” que cresce mais rápido que a conta do cartão de crédito? A gente só quer cinco minutos. Cinco míseros minutos para o cérebro fazer um “reset”, como quem desliga e liga o roteador da alma. Tem gente que fuma, com aquela pose de quem resolveu o enigma do universo na fumaça. Outros meditam, flutuando em um nirvana particular, enquanto a gente aqui mal consegue parar de roer a unha. Há os que se afogam nas redes sociais, num scroll infinito que, paradoxalmente, só aumenta o barulho. E tem os iluminados que simplesmente não fazem nada e, pasmem, voltam aos afazeres com a cabeça mais leve. Eu, sinceramente, invejo essa gente.
Para mim, o que chamam de hipomania é exatamente isso: a cabeça em rotação máxima, um liquidificador de pensamentos sem tampa, e nada, absolutamente nada, consegue me dar essa sensação de “desconectar por 5 minutos”. É como se o botão de pausa estivesse quebrado, ou pior, nunca tivesse existido. A sensação é que só um terremoto emocional, um tsunami de sensações, seria capaz de me dar um alívio, um respiro. Uma daquelas “ondas” que te levam para longe, nem que seja por um instante.
E é aí que a gente se joga. No álcool, que promete um abraço quente e traiçoeiro. Nas drogas, que acenam com um paraíso efêmero. Nas festas, onde o barulho ensurdecedor tenta abafar o barulho interno. Nas compras descontroladas, porque um novo par de sapatos ou um gadget inútil parecem, por um breve momento, preencher o vazio. São todos recursos que liberam “ondas” gigantescas de prazer, um prazer que vem com a conta, claro, mas que na hora parece a única boia salva-vidas no meio do oceano da agonia.
Em momentos de estabilidade – ah, a estabilidade, essa miragem no deserto da mente –, eu até consigo resistir a esses alívios não saudáveis. O problema é que não existe uma alternativa saudável que seja igualmente potente. O menos danoso, o “mal menor”, é se dopar com Rivotril, como quem apaga um incêndio com um balde de água, sabendo que o fogo ainda está lá, latente. É uma trégua química, não uma solução.
Faz quatro dias que o cochilo virou luxo, não passa de uma hora. O corpo grita por descanso, mas a mente, ah, a mente está em um show de rock pesado, com direito a solo de bateria interminável. Essa contradição, esse cabo de guerra entre o corpo exausto e a mente em ebulição, vai me moendo por dentro. Por fora, até pareço cheio de energia, superprodutivo, um dínamo. Por dentro, sou um trapo, um farrapo de gente.
Levei mais de vinte anos de diagnóstico e quarenta de vida para, finalmente, entender que a bipolaridade não é um defeito de fabricação, mas um traço determinante da minha personalidade. Eu sou isso. Às vezes estarei nesse estado de euforia descompassada, às vezes estarei afundado na depressão. E nem sempre, por mais que eu queira, vou conseguir recorrer às medidas menos danosas. A vida não é um manual de instruções, e a mente, muito menos.
Conviver comigo? É um saco. É difícil para mim, que sou o protagonista desse circo, e é difícil para as outras pessoas, que são a plateia (e às vezes, sem querer, os domadores). Tem vezes que a vontade é gritar para quem eu gosto, com a sinceridade brutal de quem já não tem mais filtro: “AFASTE-SE! SOU BIPOLAR!”. É um aviso, um pedido de socorro, uma confissão. É a minha maneira torta de dizer: “Cuidado, a montanha-russa está em movimento e eu não sei onde fica o freio.”