Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br Contos, Crônicas e Poesias Tue, 19 May 2026 16:48:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://viniciusprado.com.br/wp-content/uploads/2026/03/cropped-cropped-logo_vinicius_prado_2-removebg-preview-32x32.png Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br 32 32 Saudades da Lua https://viniciusprado.com.br/saudades-da-lua/ Tue, 19 May 2026 16:48:29 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1058 Saudades da Lua

Como pode o astronauta viver sem a lua?
Anos de órbita, amizade pura,
Estrelas cadentes, segredos ao luar,
Um universo de risos, um jeito de amar.
Então, a gravidade mudou, o toque, o calor,
A lua se fez lar, um eterno esplendor.
Agora, no vácuo, a nave sem direção,
Como pode o astronauta viver sem sua constelação?

Vinícius Prado

]]>
Sírius https://viniciusprado.com.br/sirius/ Sun, 17 May 2026 17:24:20 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1054 Acordei pensando em Sírius,
Na sua luz irradiante a brilhar.
E como um egípcio encantado,
Eu sigo aqui com ela a sonhar.
Sírius, a mais brilhante no céu,
Seu fulgor, meu guia, meu farol.
Adorada pelos antigos, um véu,
De mistério e amor, como o sol.

Vinícius Prado

]]>
Lithium https://viniciusprado.com.br/lithium/ Sat, 16 May 2026 21:12:55 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1050 Lithium

Meu caro amigo alquimista
Quantas vezes nessa vida
Eu foste o ridículo bêbado
E você o charmoso equilibrista?

Em certos momentos perdido
Não vendo direção alguma
Tu me seguraste como bengala
Um afago num cérebro confuso

Sempre que entro em choro e desespero
Você sensato me traz equilibrio
Não chegaria até aqui sem você
Meu amigo Lithium!

Vinícius Prado

]]>
Viver sóbrio é um saco https://viniciusprado.com.br/viver-sobrio-e-um-saco/ Thu, 14 May 2026 19:43:37 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1047 Viver sóbrio é um saco

Como bem disse o Lobão, aquele do Velho Testamento – não o arremedo que o século XXI nos impingiu –, “nunca tive problema com as drogas, só tive problemas com a polícia”. E essa máxima, meus caros, resume com uma precisão quase cirúrgica a minha relação com o álcool. Nunca, vejam bem, nunca tive problemas com o álcool. Pelo contrário, sempre nos demos às mil maravilhas. E tenho a mais profunda convicção de que, se porventura nossos caminhos se cruzarem novamente, será uma festa daquelas, com direito a confete, serpentina e talvez até umas lágrimas de reencontro.

O problema, o pequeno e insignificante detalhe, é que essa amizade tão sincera e efusiva me impedia de me dar tão bem com o resto do mundo: família, amigos, amores, desconhecidos, o porteiro, o entregador de pizza, o mendigo da esquina. Nunca fui um bêbado violento, agressivo, daqueles que quebram garrafas na cabeça alheia. Longe disso! Eu era do tipo afetuoso, inconvenientemente amoroso, um grude etílico que abraçava forasteiros e enchia o saco pela pura e simples efusão de carinho. Uma espécie de urso panda alcoolizado, mas sem a fofura e com um hálito questionável.

Entretanto, antes tarde do que mais tarde – e que ironia, a vida é cheia delas –, por uma série de eventos que, por si só, renderiam uma sequência de crônicas (e talvez um livro de autoajuda mal-humorado), eu, aos 40 anos, decidi cortar essa velha amizade da minha vida. E é uma daquelas coisas que não se faz aos poucos, como quem desmama um bebê ou tira um esparadrapo. Tem que ter data e hora, um marco, um “nunca mais”. A minha foi 1º de março, dia do meu aniversário. Acordei um lixo irreconhecível, sentindo-me o pior dos seres humanos, e o pior: não era a primeira vez que me sentia assim. Menos de um ano antes, no show da última turnê do Gil, fiz a mesma proeza. Estraguei o show para mim, para minha então namorada e para meus amigos. Ah, a memória afetiva do álcool! Tão seletiva quanto um editor de reality show.

Os olhares de decepção e raiva que recebi no dia do show do Gil e no meu aniversário foram o combustível para a virada. Nunca mais, jurei, quero ver um amigo ou amiga me olhando daquele jeito. É um tipo de olhar que te persegue, que te acusa sem dizer uma palavra, que te faz querer enfiar a cabeça num buraco e só sair quando a civilização tiver sido reconstruída por formigas.

Eis que, ao adentrar o mundo dos sóbrios, percebi uma verdade inconveniente: ser sóbrio neste mundo é chato pra cacete. Você deve estar imaginando que vou reclamar de ter que abandonar os botequins, a vida boêmia e a noite de uma forma geral. Nada disso! Tudo isso tenho mantido sem nenhum problema. Continuo sendo um bom cliente dos bares que sempre frequentei, agora pedindo uma cerveja zero ou uma tônica com limão. O garçom me olha com uma mistura de pena e respeito, como quem diz: “Coitado, mas pelo menos ainda vem”.

Agora, o que é um saco mesmo é não ter mais o álcool como anestesia para a vida. Sabe quando você está curtindo aquela solidão em casa com seu uísque, filosofando sobre a existência e a validade do seu cartão de crédito? Não tenho mais. Chorar abraçado à garrafa de cachaça, lembrando daquele amor que ainda dói como um dente siso inflamado? Não tenho mais. Tomar uma no final do dia para esquecer o chefe que te atazanou o dia todo, transformando-o num mero borrão na paisagem da sua memória? Não tenho mais.

Descobri que o álcool, além de fonte de prazer (e de algumas vergonhas alheias), era meu regulador de humor, meu melhor amigo, meu “cachorro engarrafado”, como diria o poetinha. Agora, me perdoe o trocadilho, a vida sem álcool virou um porre. É um saco ter que lidar com minhas emoções e sentimentos crus, sem filtro, como um adulto funcional,  sem a vassoura líquida que me ajudava a varrer tudo para debaixo do tapete. Viver sóbrio, meus amigos, é um saco. Mas, ei, pelo menos ninguém mais me olha com aquele olhar de decepção. E isso, por enquanto, já é alguma coisa.

]]>
183 https://viniciusprado.com.br/183-2/ Sat, 09 May 2026 14:03:32 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1044 183 voltas em sí
Meia volta ao sol
E eu sigo preso em mim
E vocé aí insistindo em sí

Vinícius Prado

]]>
Luto https://viniciusprado.com.br/luto-2/ Thu, 07 May 2026 13:16:33 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1041 Luto

Amo a Ambrosia da minha vó
E nunca mais a terei nas mãos
Amo as noites musicais com minha vó
E aceito a ideia de que haverão mais
Amo o churrasco do meu avô
Sei que não lamberemos os dedos juntos
Amo as piadas tolas do meu velho avô
Não tenho esperança de ri-las novamente.
Eles se foram, o luto martela

Agora, o amor tem dessas peças
Saber que acabou, que não voltará
Não faz a gente deixar de amar

Vinícius Prado

]]>
O Contraste https://viniciusprado.com.br/o-contraste/ Tue, 05 May 2026 21:42:09 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1037 O Contraste

Tua indiferença eu honro,
Minha força, não me calo,
Respeite o que nos faz.

Vinícius Prado

]]>
Ex-amores https://viniciusprado.com.br/ex-amores/ Tue, 05 May 2026 21:13:43 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1032 Não agradar ex-amores, essa é a lei.
Bukowski, Vinicius, Leminski, sem se curvar,
Ex-amores? Que se danem, vamos rimar.

Versos livres, a alma a florescer.
Na liberdade do verso, a esperança se faz,
Sem amarras do passado, a vida traz a paz.

Vinícius Prado

]]>
Que droga! https://viniciusprado.com.br/que-droga/ Mon, 04 May 2026 22:09:37 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1028 Que droga!
Logo no início da semana
Uma fofoca me pula na cara
Mais uma vez uma informação
Que só contigo faria sentido compartilhar
Que raiva!
De mim!
De você!
Da gente!
Porquê fizemos isso com a gente?
Seria tão simples não te amar.
Que droga!

Vinícius Prado

]]>
Acreditar? https://viniciusprado.com.br/acreditar/ Sat, 02 May 2026 23:03:58 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1012 Acreditar?

Se eu ainda tenho esperanças?
Camarada…. a quanto me conheces?
Tenho esperança na classe trabalhadora
Tenho esperança na luta popular
Acredito piamente na Revolução Socialista
Creio que o proletariado derrubará o capitalismo
Acha, sinceramente que não terei esperança
na volta de um amor que se foi ?

Vinícius Prado

]]>
Quando a saudade aperta https://viniciusprado.com.br/quando-a-saudade-aperta/ Fri, 01 May 2026 23:25:34 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1024 Quando a saudade aperta

Te procurei ansioso em vão
Nas janelas dos carros ao lado
Não queria contato algum
Não queria que me visse
Nem uma derradeira conversa
Só queria ter ver, saber que está bem
Porque sempre é assim
Quando a saudade aperta

Vinícius Prado

]]>
Meus limites https://viniciusprado.com.br/meus-limites/ Mon, 27 Apr 2026 23:20:19 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1021 Meus limites

Não me cobre felicidade
Ela é volátil, efêmera
Depende do incontrolável

Bem cobre estabilidade
Tenho a indelével habilidade
De estar bem na tristeza,
depressão ou melancolia.

Vinícius Prado

]]>
Amor que estraguei… https://viniciusprado.com.br/amor-que-estraguei/ Mon, 27 Apr 2026 22:17:04 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1008 Amor que estraguei…

Esperançosos aguardam
o grande amor chegar

mas nessa pressa cega
não percebem:
ele já esteve aqui

não foi o tempo
nem o destino distraído

Não foi descuido
foi falta de cuidado
Amor mal cultivado

agora sobra
um calor incômodo no peito
entre saudade e culpa

e o que era vida
vira história

dessas que o velho solário conta
baixo
quase como aviso

a quem ainda pode ouvir

Vinícius Prado

]]>
Vilão https://viniciusprado.com.br/vilao/ Mon, 27 Apr 2026 22:03:45 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1005 Vilão

Final feliz, nunca o vi,
Otimista dirá: não chegou.
O Pessimista: não existe, enfim.
Eu, realista, só sei:
Vilão, sempre fui,
Em cada história que entrei.

Vinícius Prado

]]>
O Privilégio do Amor Distorcido https://viniciusprado.com.br/o-privilegio-do-amor-distorcido/ Mon, 27 Apr 2026 20:10:59 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1003 O Privilégio do Amor Distorcido

Meus lamentos masculinos, um palco armado,
Choro aceito, um drama encenado.
“Que coragem!” dizem, “Que sensível!”
Enquanto o nó na garganta é invisível.

Versos tortos, atitudes que ferem,
Mulheres que amei, que se desesperam.
No fim, a pergunta, um eco vazio:
“Por que o abandonaram, tão doce?”

Mas a verdade, nua e crua, se impõe:
Sou babaca, escroto, violento como tantos.
O privilégio cega, a pose engana,
E o romântico vira a face tirana.

Vinícius Prado

]]>
Soneto bipolar https://viniciusprado.com.br/soneto-bipolar/ Mon, 27 Apr 2026 20:00:49 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1000 Soneto bipolar
A mania em fúria, a alma dilacera,
Um turbilhão sem fim, que tudo consome,
A ansiedade em brasa, o peito me oprime,
E a mente em desespero, a paz já não espera.

Por regulação, o corpo em vão se esmera,
Numa espera cruel, que a calma não assume,
Onde a luz se apaga, e a sombra se resume,
E a vida em seu compasso, em dor se desespera.

Mas na depressão, um refúgio se revela,
Um silêncio profundo, que a alma acalma enfim,
Na escuridão serena, a morada me apela.

Longe do grito insano, do caos que me consome,
Encontro a paz sombria, que me faz sentir assim,
No abismo, a quietude, onde a dor não tem nome.

]]>
Coicca https://viniciusprado.com.br/coicca/ Sun, 26 Apr 2026 23:14:38 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=1016 Coicca

Do Capanema e da Vila,
o samba subiu a avenida.
Parou na universidade,
fez festa e teve acolhida.

Doutor tocou a cuíca,
malandro deu aula magna.
Agora todos vão ver,
o que essa gente consagra.

Samba não é só do povo,
nem é só Carnaval.
O samba cria o povo,
é lição fundamental.

Vinicius Prado

]]>
Das coisas https://viniciusprado.com.br/das-coisas/ Sat, 25 Apr 2026 12:26:48 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=996 Das coisas

Das coisas malditas
que não se domam,
o amor, ah, o amor,
lazarento mor.

quando toma,
é droga,
incha, feliz, louco.

quando vai,
sem querer,
pior que doença,
apaga o sol, a vida, o ir.

Vinicius Prado

]]>
Ecos de um Riso Perdido https://viniciusprado.com.br/ecos-de-um-riso-perdido/ Fri, 24 Apr 2026 17:57:49 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=990

Hoje, em meio ao turbilhão do dia,
Deparei-me com a fofoca, a pura magia.
Um segredo leve, um riso contido,
Que em sua presença teria sentido.

Ah, como eu quis tecer a narrativa,
Ver em seus olhos a chama viva.
Compartilhar o enredo, o detalhe sutil,
Que só você, com seu jeito, faria gentil.

E então, na tela, um brilho fugaz,
O meme perfeito, que a alma refaz.
Surgiu espontâneo, na linha do tempo,
Promessa de um riso, um doce momento.

Imaginei seu sorriso, a alegria sincera,
Que em meu peito, a esperança acendera.
Mas o tempo, cruel, não me deu a chance,
De ofertar-lhe esse breve e feliz romance.

Perdi o direito, a voz embargada,
De ver sua face, tão iluminada.
O riso que o meme poderia evocar,
Agora é um eco, um triste lugar.

Assim, guardo a fofoca, o meme sem par,
Em um canto da alma, a me lembrar,
Que há belezas que surgem, mas se vão,
Quando o elo se quebra, em pura solidão.

Vinícius Prado

]]>
Final Feliz https://viniciusprado.com.br/final-feliz/ Wed, 22 Apr 2026 21:46:01 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=987 Final feliz, nunca o vi,
Otimista dirá: não chegou.
O Pessimista: não existe, enfim.
Eu, realista, só sei:
Vilão, sempre fui,
Em cada história que entrei.

Vinícius Prado

]]>
Derrotado https://viniciusprado.com.br/derrotado/ Tue, 21 Apr 2026 22:22:09 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=983 Me chamaram fraco,
dramático, exagerado.
Estavam certos.

Sinto com força,
expresso sem medo.
Sem padrões, sou eu.

Vinícius Prado

]]>
Saudade https://viniciusprado.com.br/saudade-3/ Tue, 21 Apr 2026 21:58:52 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=980 Saudade que aperta,
Corta a alma, fere o peito.
Não há cura, só a dor
De um amor que não tem volta,
De um tempo que se foi.
E a lembrança, cruel,
Insiste em ficar.

Vinícius Prado

]]>
Carta não enviada https://viniciusprado.com.br/carta-nao-enviada/ Fri, 17 Apr 2026 16:50:45 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=975 Minha querida,

Não te escrevo para clamar por um amor que se foi,
Nem para suplicar por um regresso que não me cabe.
Estas linhas, eu sei, já não te alcançam,
Meus pensamentos, meus lamentos, já não te importam.

Mas escrevo, sim, para a alma que em mim se consome,
Para confessar a mim mesmo o quão tolo eu fui,
Com quem tanto me deu, com quem tanto me amou.

E dói, oh, como dói, imaginar que,
Após a vastidão de nossa história,
Eu seja apenas um vulto, um nome esquecido
Na galeria de teus amores passados.

Dói a certeza de que jamais poderei
Admitir os erros que, tardiamente,
Minha cegueira me permitiu enxergar.

Dói saber que este amor, que para mim foi o universo,
Possa ter sido para ti um breve cometa,
Sem rastro, sem significado em tua jornada.

Por fim, a dor maior: admitir que destruí
O mais precioso presente que a vida me ofertou.

E para ti, talvez, minha partida seja a brisa,
A libertação de uma história ruim,
De um fardo que, em minha insensatez, te impus.

Vinícius Prado

]]>
O Inventário dos Amores! https://viniciusprado.com.br/o-inventario-dos-amores/ Wed, 15 Apr 2026 18:59:05 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=972

Quarenta. Um número que, para João, não era apenas uma idade, mas um marco, um portal para uma espécie de balanço existencial não solicitado. Não que ele fosse dado a introspecções profundas, mas a chegada dos quarenta, com seu ar de ultimato silencioso, o forçou a uma retrospectiva. E o que viu, ao olhar para trás, não foi exatamente um álbum de fotos em sépia, mas uma galeria de escombros emocionais, cada qual com a assinatura indelével de um certo… João.

Naquela noite de aniversário, o bolo de padaria, solitário sobre a mesa da cozinha, parecia zombar de sua falta de companhia. Sem a pompa de um confeito caseiro, sem o calor de vozes que cantassem “Parabéns”, apenas o silêncio e o ronronar distante da geladeira. João, com um copo de uísque na mão – um single malt que ele se permitia em ocasiões de auto-piedade –, sentiu o peso não dos anos em si, mas das lembranças que, como fantasmas insistentes, começaram a desfilar. Quarenta anos e uma galeria de amores desfeitos, cada qual com sua peculiaridade, com suas nuances, mas todos, sem exceção, com um denominador comum, um fio condutor que ligava cada desastre: ele.

Ele não era um homem mau, João. Apenas… João. E isso, descobriu ele, com uma epifania tardia e dolorosa, era o cerne do problema. Ser “apenas João” significava ser uma constelação de inseguranças disfarçadas de certezas, de medos travestidos de controle, de uma incapacidade crônica de se ver e, consequentemente, de ver o outro. E essa constatação, ele percebeu, não era fruto de um processo evolutivo. Longe disso. Era apenas a acumulação de evidências.

A Doce Ana: O Ciúme e a Gaiola Aberta

A primeira da fila, a doce Ana. Ah, Ana. Com seus olhos grandes e a ingenuidade dos vinte e poucos anos, ela o amava com uma pureza que, hoje, João reconhecia como quase sacrificial. Ele, com a arrogância dos seus próprios vinte e poucos, a sufocou. Não com abraços apertados, mas com um ciúme infundado, com uma necessidade patológica de controle que, na época, ele justificava como “cuidado” ou “zelo”. Cada sorriso dela para um amigo, cada atraso de cinco minutos, era um gatilho para um interrogatório velado, para uma nuvem de desconfiança que pairava sobre o relacionamento. Ele não percebia que, ao tentar protegê-la do mundo, estava, na verdade, aprisionando-a em sua própria insegurança. Ela se foi, como um pássaro que, finalmente, encontra a coragem de escapar da gaiola aberta, deixando para trás um bilhete curto, mas lapidar: “Preciso de ar”. João, na época, em sua juventude cega, achou que ela era fraca, que não soubera lidar com a intensidade de seu amor. Hoje, com o uísque aquecendo a garganta e a memória, percebeu que ele era o furacão, e ela, a folha que tentava resistir.

A Intensa Bia: O Burocrata do Afeto e o Vento

Depois veio a intensa Bia. Ah, Bia! Uma força da natureza, um turbilhão de vida, uma mulher que vivia cada dia como se fosse o último, sem amarras, sem roteiros pré-definidos. Ela o tirava de sua zona de conforto, o desafiava, o fazia sentir-se vivo de uma forma que ele não conhecia. Mas João, com sua rotina metódica, com seu medo atávico do imprevisível, tentou domá-la. Queria encaixá-la em seus horários, em seus planos de longo prazo, em sua vida previsível e sem sobressaltos. Ele via a espontaneidade dela como irresponsabilidade, a paixão como descontrole. Tentou podar suas asas, aparar suas arestas, transformá-la em algo que ela não era. Ela resistiu, claro, com a ferocidade de quem defende sua própria essência. E ele, em sua teimosia míope, não percebeu que estava tentando prender o vento em uma garrafa. O fim foi explosivo, com pratos quebrados – uma metáfora perfeita para o que restou do relacionamento – e palavras que cortavam mais do que qualquer caco de louça. Ele a acusou de ser irresponsável, de não ter os pés no chão. Ela o chamou de burocrata do afeto, de coveiro de paixões. Ambos tinham razão, em certa medida, mas ele, mais uma vez, havia sido o catalisador da implosão, o engenheiro da catástrofe.

A Sofisticada Camila: A Omissão e o Vazio

E a sofisticada Camila? Aquela que o introduziu a vinhos que ele não sabia pronunciar, a concertos de música clássica que ele fingia apreciar e a livros que ele fingia ter lido. Com Camila, o erro de João não foi a ação, mas a omissão. Ele se escondia atrás de um silêncio complacente, de uma passividade que ele confundia com maturidade. Evitava confrontos, fugia das conversas difíceis, deixando que as pequenas fissuras do relacionamento se transformassem, silenciosamente, em abismos intransponíveis. Ela precisava de um parceiro, de alguém que a desafiasse intelectualmente, que estivesse presente não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ele ofereceu um espectro, uma sombra, um eco distante de um companheiro. Ela, com a elegância que lhe era peculiar, apenas se afastou, sem drama, sem alarde, como quem desiste de um jogo que não vale a pena ser jogado, ou de um livro que não consegue prender a atenção. João, na época, em sua incapacidade de decifrar os sinais, pensou que ela era fria, distante. Hoje, com a lucidez cruel da retrospectiva, entendeu que ele era o vazio que ela não conseguia preencher.

A Vibrante Diana: O Ápice da Mediocridade Afetiva

Mas foi com a última, a vibrante Diana, que João atingiu o ápice de sua mediocridade afetiva. Com Diana, ele foi tudo o que não deveria ser, e mais um pouco. Mentiu com a facilidade de um vendedor de ilusões, decepcionou-a com a covardia de quem não assume as consequências, manipulou com a destreza de um marionetista. Fez dela um campo de batalha para suas próprias frustrações, um espelho distorcido de suas falhas mais profundas. Diana, que o amou com uma paixão que ele, em seus momentos mais honestos, sabia que não merecia, foi a que mais sofreu. E a que, sem sombra de dúvida, mais tem todo o direito de considerá-lo um filho da puta. Ele sabia disso. Sentia o peso dessa verdade como uma âncora enferrujada no peito, arrastando-o para o fundo de um mar de arrependimentos. Não havia processo evolutivo, não havia aprendizado com os erros. A cada novo amor, ele parecia apenas refinar suas técnicas de autodestruição relacional, como um artista macabro que aprimora sua obra-prima de desolação.

Sentado na poltrona gasta, o estofamento cedendo sob o peso de seus quarenta anos e de suas memórias, com o bolo intocado e a garrafa de uísque pela metade, João olhou para o lado. Seu velho cão, Tobias, um vira-lata de pelos grisalhos e olhos cansados, dormia profundamente a seus pés. Tobias, que o acompanhava há mais de uma década, que testemunhou todos os seus amores e desamores, todas as suas alegrias efêmeras e suas misérias duradouras. Tobias, que nunca o julgou, que nunca pediu mais do que um afago na cabeça e um pote de ração cheio. Tobias, que, talvez por uma lealdade cega e inquestionável, ou por pura e simples falta de opção, continuava ali, fiel como nunca, um monumento canino à paciência e ao amor incondicional.

João sorriu, um sorriso amargo que mal alcançava seus olhos. A constatação, que antes era um sussurro incômodo, agora gritava em sua mente com a clareza de um sino de igreja: conviver com ele nunca fora uma tarefa fácil. Que Ana, Bia, Camila, Diana, e todas as outras que porventura tivessem passado por sua vida, haviam ido até onde foi possível, respeitando o limite de cada uma delas, o limite da própria sanidade. E que ele, João, nunca fora um bom companheiro. Nem para elas, nem, e essa era a parte mais cruel de admitir, para si mesmo. Nunca cuidou de si como deveria, nunca se amou o suficiente para, então, amar o outro de verdade, sem as projeções, as inseguranças, os medos. Talvez, pensou ele, a única companhia que ele conseguiria levar para a velhice fosse Tobias. E, de alguma forma estranha e melancólica, essa constatação, por mais desoladora que fosse, trazia uma estranha e resignada paz. Uma paz que vinha da aceitação de sua própria imperfeição, de sua própria e intransferível “joãozice”. O uísque desceu queimando, mas a verdade, por mais amarga, era um bálsamo. E Tobias, alheio a todas as crises existenciais humanas, apenas sonhava, talvez com um osso, talvez com a próxima caminhada, fiel em sua simplicidade canina, o último bastião de afeto na vida de João.

]]>
Insisto https://viniciusprado.com.br/insisto/ Tue, 14 Apr 2026 22:24:53 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=962 Corro
Insisto
Procuro
No escuro
Uma pausa
Na angustia

Vinícius Prado

]]>
Segunda Chance https://viniciusprado.com.br/segunda-chance/ Mon, 13 Apr 2026 22:10:55 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=959

Invejo os que têm uma segunda chance.
Aqueles que, diante dos erros mais grotescos,
a vida lhes proporciona uma segunda chance.
Pecam, ferem, dilaceram e, ainda assim,
a vida lhes proporciona uma segunda chance.

Eu, miserável que sou, nunca tive essa dádiva.
Todas as vezes em que falhei, fui miseravelmente punido.
Na primeira falha, no primeiro erro, no primeiro ato torto,
a vida impiedosa sempre me cobrou a fatura.

Nunca tive oportunidade de mostrar arrependimento,
a vida nunca permitiu diante de minhas falhas,
pequenas ou absurdas que eu pudesse me redimir.
Invejo os que têm uma segunda chance.

Vinícius Prado

]]>
A Doença do Vazio https://viniciusprado.com.br/a-doenca-do-vazio/ Mon, 13 Apr 2026 21:53:14 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=956 Era uma vez, ou talvez fosse apenas ontem, num desses dias que se arrastam como uma segunda-feira eterna, que Augusto sentiu o primeiro arrepio. Não um arrepio de frio, nem de medo, mas um arrepio de… nada. Um vazio que se instalava, silencioso e sorrateiro, como um inquilino indesejado que não paga aluguel e ainda por cima desarruma a mobília da alma. Augusto, um homem de hábitos tão regulares quanto o batimento cardíaco de um relógio suíço, notou que o entusiasmo, antes um companheiro fiel, havia tirado férias sem aviso prévio. E o pior: não parecia ter intenção de voltar.

Os sintomas, a princípio, eram sutis, quase poéticos em sua melancolia. Um desânimo que se aninhava nos cantos da sua existência, uma apatia que transformava o vibrante mundo em uma aquarela desbotada. O café da manhã, antes um ritual sagrado de torradas crocantes e geleia de frutas vermelhas, virou um fardo. O apetite, esse velho amigo que sempre o acompanhava nas aventuras gastronômicas da vida, simplesmente se despediu. E com ele, o peso. Augusto, que sempre lutou contra a balança com a bravura de um cavaleiro medieval, viu-se emagrecer sem esforço, sem dieta, sem a menor intenção. As roupas, antes justas, agora pendiam como bandeiras a meio mastro, anunciando uma derrota silenciosa.

Depois veio a queda dos cabelos. Não uma queda discreta, como a de folhas no outono, mas um êxodo em massa, um abandono capilar que transformava seu travesseiro em um campo de batalha pós-guerra. Augusto se olhava no espelho e via um estranho, um fantasma de si mesmo, com olhos que antes brilhavam com a luz da curiosidade e agora refletiam apenas o cinza de um dia nublado. Os amigos, sempre prontos para uma piada ou um chope gelado, notaram a mudança. “Você está com uma cara de quem perdeu a aposta da vida, Augusto”, dizia um. “Precisa de umas férias, meu caro, umas férias bem longas”, sugeria outro. Mas Augusto sabia que não era cansaço. Era algo mais profundo, mais insidioso, que corroía sua essência como um ácido invisível.

Os médicos, ah, os médicos! Augusto peregrinou por consultórios que mais pareciam templos de alta tecnologia, cada um com um oráculo diferente, um diagnóstico provisório, uma pílula colorida. Psiquiatras, neurologistas, endocrinologistas, clínicos gerais. A lista de especialistas era tão longa quanto a de exames que ele fez. Ressonâncias magnéticas que zumbiam como abelhas gigantes, tomografias que o transformavam em um sanduíche de alta definição, exames de sangue que pareciam drenar não apenas seu plasma, mas também sua esperança. Tudo normal. Absolutamente normal. Os resultados voltavam limpos, imaculados, como a ficha criminal de um anjo. “Depressão atípica”, arriscou um. “Estresse pós-moderno”, filosofou outro. Mas Augusto sabia que não era depressão. Era mais forte, mais intenso, mais doloroso. Era como se a própria vida estivesse se descolando dele, célula por célula, átomo por átomo.

A saga de exames não se limitou às fronteiras nacionais. Augusto, com a tenacidade de um detetive em busca de uma pista final, vendeu o que tinha, pegou empréstimos e embarcou em uma jornada transcontinental. Nova Iorque, Londres, Zurique. Os melhores hospitais, os maiores nomes da medicina, os equipamentos mais sofisticados. Ele se submeteu a testes experimentais, a terapias alternativas, a dietas exóticas. Conversou com gurus, xamãs, e até com um curandeiro que prometia curar males da alma com chás de ervas raras. Nada. Absolutamente nada. O veredito era sempre o mesmo: clinicamente perfeito, psicologicamente intrigante. Ele era um mistério médico, um enigma ambulante, um paradoxo biológico. Um homem saudável que definhava.

Com o tempo, a doença do vazio, como Augusto a batizou em seus monólogos internos, agravou-se. O desânimo transformou-se em exaustão. A apatia, em prostração. Primeiro, ele precisou ficar acamado. O mundo se resumiu ao teto do seu quarto, às sombras que dançavam nas paredes, ao som distante da vida lá fora, que parecia zombá-lo com sua vitalidade. Depois, a hospitalização. O cheiro de desinfetante, o bipe constante dos aparelhos, as vozes sussurrantes das enfermeiras. Ele era agora um número, um caso interessante, uma anomalia a ser estudada. Os dias se arrastavam, indistinguíveis uns dos outros, como páginas em branco de um livro que ninguém queria ler.

Augusto foi definhando na cama, um esqueleto coberto por uma pele translúcida, os olhos fundos, mas ainda com um brilho de incompreensão. A vida, que antes era um rio caudaloso, agora era um riacho seco, com pedras expostas e a promessa de um fim iminente. Os médicos, antes tão cheios de certezas e prognósticos, agora apenas balançavam a cabeça, impotentes diante de um mal que não se encaixava em nenhum manual, em nenhuma estatística.

Pouco antes de partir, o Dr. Almeida, um homem de barba grisalha e olhar cansado, mas ainda com um resquício de humanidade em meio à frieza da ciência, sentou-se ao lado da cama de Augusto. A sala estava em silêncio, apenas o som suave do monitor cardíaco que insistia em registrar uma vida que já se esvaía. Augusto, com um fio de voz, perguntou:

“Doutor… o que eu tenho, afinal?”

O Dr. Almeida suspirou, um suspiro que carregava o peso de anos de medicina, de vitórias e derrotas, de vidas salvas e vidas perdidas. Ele olhou para Augusto, não como um paciente, mas como um ser humano à beira do abismo.

“Augusto… eu… eu não sei. Não há nada nos exames, nada na literatura médica que explique o que aconteceu com você. Seu corpo… seu corpo está perfeito. Mas algo… algo se desligou.”

Augusto sorriu, um sorriso fraco, quase imperceptível, mas que carregava uma estranha serenidade. “Eu sei o que é, Doutor. Eu sei.”

O Dr. Almeida o encarou, surpreso. “E o que é, Augusto?”

“É a doença do vazio, Doutor. A falta de sentido. Eu vivi uma vida… sem um porquê. Sem um para quê. Eu cumpri todas as etapas, segui todas as regras, mas nunca encontrei a melodia da minha própria existência. E agora… agora o silêncio é ensurdecedor.”

As palavras de Augusto pairaram no ar, pesadas e verdadeiras. O Dr. Almeida sentiu um nó na garganta. Ele, um homem de ciência, confrontado com uma verdade que transcendia a biologia, a química, a física. Uma verdade que habitava o reino da alma, do espírito, do intangível.

Augusto fechou os olhos, e o monitor cardíaco, antes tão insistente, emitiu um som contínuo, monótono, o som do fim. A vida, que se esvaía em silêncio, finalmente se calou.

Minutos depois, uma enfermeira jovem, com o rosto ainda marcado pela rotina implacável do hospital, entrou no quarto. Ela pegou a prancheta, pronta para os registros burocráticos. Anotou a hora da morte, o nome do paciente, e então, com a caneta suspensa no ar, olhou para o Dr. Almeida.

“Doutor… a causa da morte?”

O Dr. Almeida olhou para a enfermeira, depois para o corpo inerte de Augusto. Um silêncio pesado preencheu o quarto. Ele respirou fundo, e com uma voz que parecia carregar a sabedoria de mil anos, respondeu:

“Tristeza e falta de sentido na vida.”

]]>
A Sombra Insistente https://viniciusprado.com.br/a-sombra-insistente/ Sat, 11 Apr 2026 17:38:16 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=969

Sem ter o que fazer, a tristeza vem.
Espero que ela vá, mas ela insiste.
Volta, humilha, e em mim persiste.
Um fardo que não tem fim, um eterno amém.

Vinicius Prado

]]>
Embriaguez https://viniciusprado.com.br/embriaguez/ Fri, 10 Apr 2026 21:35:53 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=966 Em outros tempos, a semana finda,
Na taça cheia, a dor se escondia.
Afogava as mágoas, a alma ferida,
Na embriaguez que a noite trazia.

Hoje, a batalha é outra, mais sutil,
Sem o licor que a mente turva.
Minha embriaguez, um novo perfil:
É aguentar tudo com água e limão, na curva.

Vinícius Prado

]]>
Os Pontinhos Vermelhos e a Ciência da História https://viniciusprado.com.br/os-pontinhos-vermelhos-e-a-ciencia-da-historia/ Fri, 10 Apr 2026 20:50:57 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=952 Ah, o início. Aquele tempo em que a gente ainda se acha um farol de sabedoria recém-saído da universidade, pronto para iluminar mentes jovens com o brilho ofuscante do conhecimento acadêmico. Eu, recém-egresso, com o diploma ainda quente e a cabeça fervilhando de teorias e conceitos complexos, fui jogado no epicentro da realidade: uma turma de quinta série, hoje sexto ano – o que, sim, denuncia um pouco a minha idade e a poeira acumulada nas minhas memórias. Crianças de 11, 12 anos, com a capacidade de absorção de um buraco negro para qualquer coisa que não fosse o recreio ou o desenho animado da manhã.

Minha primeira aula expositiva, um monumento à minha própria inexperiência. O tema? “O Conceito de Ciência da História”. Eu, com a eloquência de quem acabara de defender uma tese, despejava sobre aquelas cabecinhas o arcabouço teórico que me parecia tão fundamental. Falava de fontes primárias e secundárias, de historiografia, de anacronismos, enquanto a plateia, em sua sabedoria infantil, me dava um banho de realidade. Olhares perdidos no horizonte da janela, rabiscos frenéticos em cadernos que se tornavam telas de arte abstrata, e alguns, os mais sinceros, me fitavam com aquela expressão inconfundível de “que diabos esse maluco está falando?”.

A ineficácia do meu discurso era tamanha que, confesso, comecei a me perder no próprio labirinto das minhas palavras. Minha boca seguia o roteiro ensaiado, um piloto automático da pedagogia, mas minha mente, ah, essa já estava em outro lugar, questionando-se: “Que diabos eu estou falando?”. Uma crise existencial em tempo real, ali, diante de 30 pares de olhos desinteressados. A inutilidade da minha metodologia, a fragilidade das minhas escolhas didáticas, tudo me atingia como um raio. Eu era um professor inútil, um mero barulho de fundo para os devaneios infantis.

Foi então que, em meio ao deserto de atenção, um oásis. Uma menina. Olhos fixos em mim, uma concentração que beirava a hipnose. Ela me acompanhava, cada movimento, cada gesto, cada palavra, como se eu fosse o oráculo de Delfos e ela, a mais devota das sacerdotisas. Um sopro de vida, uma injeção de ânimo. “É por ela!”, pensei. “Se eu atingir uma mente, um coraçãozinho que seja, todo o esforço vale a pena!”. E ali, naquele instante, decidi que daria aula para aquela menina. Foquei nela, despejei todo o conteúdo, toda a paixão que ainda me restava. Ela, cada vez mais compenetrada, seguia o movimento das minhas mãos como uma flecha teleguiada.

Terminei a exposição, exausto, mas com um brilho de esperança. Ansioso por um debate, por uma fagulha de interesse, mesmo sabendo que talvez não tivesse atingido ninguém além da minha mini discípula. “Alguém tem alguma dúvida ou questão?”, perguntei, com a voz embargada pela expectativa. E eis que ela, a menina que me salvou do abismo da desistência, aquela que me motivou a não parar a aula no meio e aceitar minha derrota, levantou a mão, ansiosa para falar. Meu coração disparou. “É isso!”, pensei. “Meu discurso tocou uma aluna, e isso já vale muito!”.

E então, a pergunta que ecoa até hoje nos corredores da minha memória: “Professor, esses pontinhos vermelhos no seu braço, não é catapora não?”.

Não era atenção. Não era apreço pela história. Não era cativação pelo meu discurso ou metodologia. Era apenas o medo, o puro e simples medo de uma doença infectocontagiosa. A tranquilizei, explicando que eram apenas picadas de pernilongo, e comecei a refazer mentalmente minha aula, antes de seguir para a próxima turma, com a certeza de que a vida de professor é, antes de tudo, uma lição de humildade e uma eterna busca por pontinhos vermelhos que, afinal, não são catapora.

]]>
Idiota https://viniciusprado.com.br/idiota/ Thu, 09 Apr 2026 21:52:40 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=945 Não há tempo para corações partidos, eu disse.
E ainda assim, aqui estou eu, um idiota, um monumento à minha própria estupidez.
Preso a uma ideia, um fantasma que só existe na minha cabeça suja.
Nunca antes, tanto tempo, nesta merda de limbo.
Preferindo a dor familiar, a ferida aberta, a conhecer novas bocas, novos lençóis.

Raiva. Sim, raiva. De mim mesmo, principalmente.
Em breve, ela nem lembrará meu nome, talvez um vago contorno.
E eu? Eu serei o cão sarnento, esperando o estalar dos dedos.
Pronto para rastejar, lamber a mão que me negou.
Que patético. Que previsível. Que idiota.

Vinícius Prado

]]>
Litígios Amorosos e Burocráticos https://viniciusprado.com.br/litigios-amorosos-e-burocraticos/ Tue, 07 Apr 2026 18:38:02 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=940 Saí daquela sala de provas do DETRAN-PR com a sensação de quem acaba de vencer uma batalha épica, ou talvez, de quem finalmente pagou uma dívida antiga e impagável com a sociedade. O papel em minhas mãos confirmava: apto. Apto a renovar a carteira, apto a dirigir novamente, apto a, quem sabe, retomar as rédeas da minha vida sem a sombra de um litígio burocrático.

Cinco anos. Mais de cinco anos se passaram desde aquele fatídico dia em que o bafômetro e a Lei Seca me abraçaram com a frieza da lei. Cinco anos de recursos, protelações e uma relação com o DETRAN-PR que, confesso, foi mais duradoura e, em certos aspectos, mais intensa que muitos dos meus relacionamentos amorosos.

E por falar em relacionamentos, um aviso: os nomes aqui são fictícios, claro. Afinal, já sofreram o bastante sendo minhas namoradas para ainda terem seus nomes reais expostos em uma crônica de gosto duvidoso. Mas, sigamos, porque a vida, e a burocracia, não param.

Quando a sirene da viatura ainda ecoava em meus ouvidos e o número do bafômetro me assombrava, eu namorava Celeste. Celeste, uma moça que, sem saber, estava prestes a testemunhar o início de uma saga que superaria, em longevidade e complexidade, o nosso próprio romance. O recurso contra a multa foi protocolado, e a máquina burocrática, com sua lentidão quase poética, começou a girar. Celeste, coitada, logo partiu, não pela minha distração legal, mas por uma série de outros defeitos meus. Ela se foi, e o recurso ficou.

Enquanto o processo do DETRAN-PR se arrastava com a dignidade de uma tartaruga reumática, meu coração, menos paciente que a justiça, seguiu em frente. Celeste virou passado, e em seu lugar surgiu Aurora. Aurora, que talvez tenha pensado que o maior desafio do nosso relacionamento seria as minhas indecisões como sobre qual sabor de pizza pedir, mal sabia que estava competindo com um litígio administrativo. O recurso, fiel e constante, continuava lá, firme como uma rocha, enquanto Aurora, como um verão passageiro, também se foi.

E então veio Bruna. Ah, Bruna. Ela chegou quando o recurso já era quase um membro da família, um parente distante, mas sempre presente, nas conversas e nos pensamentos. Foi durante o nosso namoro, no auge da minha esperança de que a burocracia tivesse um coração, que a notícia chegou: recurso negado. E, com ele, a inevitável suspensão da carteira. Enquanto eu cumpria a pena, Bruna estava lá, testemunha silenciosa da minha penitência automotiva. Ela me acompanhava, com uma paciência que eu, francamente, não merecia. Bruna era como ter um oásis no meio do deserto burocrático da minha vida sem volante. E, por um tempo, eu realmente acreditei que o oásis seria permanente, mais permanente que a própria suspensão.

Mas, como tudo que é bom e, aparentemente, com tudo que é comigo, Bruna também se foi. E, ironicamente, o recurso da Lei Seca, que havia sido negado e cuja pena eu já havia cumprido durante nosso tempo juntos, parecia ter deixado uma marca menos profunda que a ausência dela.

Agora, com a carteira de motorista finalmente retomada, faço um balanço. Três namoros se foram como folhas secas levadas pelo vento. Mas o recurso? Ah, o recurso! Ele permaneceu. Resistiu. Sobreviveu. Foi mais sólido, mais duradouro, mais presente que qualquer uma das minhas relações afetivas recentes. Uma constatação amarga, talvez, mas inegavelmente verdadeira.

Em um momento de epifania (ou seria desespero?), concluo: “Talvez eu seja melhor infrator de trânsito que namorado.” Uma frase que, se dita em voz alta, faria minha psicologa erguer a sobrancelha. Mas, no fundo, há uma verdade cruel. A paixão pela infração, a dedicação ao litígio, a resiliência em enfrentar a burocracia – tudo isso eu demonstrei com maestria. Já no campo amoroso, bem, os resultados falam por si.

Alguns amores passam como aquela baforada no bafômetro na beira da estrada, já outros são aquele recurso que eu não consegui reverter, aquela suspensão que ainda me pesa, mesmo com a carteira de volta.

Que sirva de lição, ou de piada, ou de ambos. E que as futuras pretendentes saibam que, talvez lidar com um processo administrativo no DETRAN-PR lhe traga mais estabilidade e paz do que se relacionar comigo.

]]>
Gélido timer! https://viniciusprado.com.br/gelido-timer/ Sun, 05 Apr 2026 22:19:55 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=937 Me perguntas por que ainda dói, tolo?
Quanto tempo dura ainda mais, questionas?
Há relógio para o amor que foi?
Calendário para as almas que se perdem?

Que lógica gélida é essa?
Medir o luto em dias ou estações?
O coração, partido, deve ter timer?
Não sangrará por todas as razões?

Não há tempo para esquecer o que se amou,
A ferida aberta não se fecha à toa.
Então, guarda tua pergunta, ela não me cabe,
Não sinto seguindo a régua fria deste mundo.

Vinícius Prado

]]>
Computador velho https://viniciusprado.com.br/computador-velho/ Sun, 05 Apr 2026 18:04:28 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=934

Um monte de peças sem vida
Não ligam, nem ligam para mim.
Há tempos esperam o inevitável,
Destino de todas as nossas
Porcarias tecnológicas.
O Lixo!

Há muito que reluto em lhe dar
O digno destino final dos gadgets.

Com uma puta velha dor
Não me livro do computador
Que me lembra um amor!

Vinícius Prado

]]>
Bom dia https://viniciusprado.com.br/bom-dia/ Sun, 05 Apr 2026 18:02:00 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=931
Bom ia
Outro dia!
Mais um dia!
Viva o dia!

Vinícius Prado

]]>
Lazarentamente Linda https://viniciusprado.com.br/lazarentamente-linda/ Fri, 03 Apr 2026 11:30:52 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=925 Acordo e trombo uma foto sua,
Lazararentamente linda!!
Os olhos brilhando como faróis,
O sorriso reluzindo como a lua,
A pele brilhando como um sol.
Algo em mim sorriu,
Por não fazer mal mais a nós!
Algo em mim foi pranto,
Dilacera a alma reconhecer
Que o lazarento fui eu.

VInícius Prado

]]>
AFASTE-SE BIPOLAR! https://viniciusprado.com.br/afaste-se-bipolar/ Thu, 02 Apr 2026 21:22:40 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=920

Sabe aquela hora em que a vida vira um turbilhão de abas abertas no navegador da mente? Aquela pilha de “coisas pra pensar” que cresce mais rápido que a conta do cartão de crédito? A gente só quer cinco minutos. Cinco míseros minutos para o cérebro fazer um “reset”, como quem desliga e liga o roteador da alma. Tem gente que fuma, com aquela pose de quem resolveu o enigma do universo na fumaça. Outros meditam, flutuando em um nirvana particular, enquanto a gente aqui mal consegue parar de roer a unha. Há os que se afogam nas redes sociais, num scroll infinito que, paradoxalmente, só aumenta o barulho. E tem os iluminados que simplesmente não fazem nada e, pasmem, voltam aos afazeres com a cabeça mais leve. Eu, sinceramente, invejo essa gente.

Para mim, o que chamam de hipomania é exatamente isso: a cabeça em rotação máxima, um liquidificador de pensamentos sem tampa, e nada, absolutamente nada, consegue me dar essa sensação de “desconectar por 5 minutos”. É como se o botão de pausa estivesse quebrado, ou pior, nunca tivesse existido. A sensação é que só um terremoto emocional, um tsunami de sensações, seria capaz de me dar um alívio, um respiro. Uma daquelas “ondas” que te levam para longe, nem que seja por um instante.

E é aí que a gente se joga. No álcool, que promete um abraço quente e traiçoeiro. Nas drogas, que acenam com um paraíso efêmero. Nas festas, onde o barulho ensurdecedor tenta abafar o barulho interno. Nas compras descontroladas, porque um novo par de sapatos ou um gadget inútil parecem, por um breve momento, preencher o vazio. São todos recursos que liberam “ondas” gigantescas de prazer, um prazer que vem com a conta, claro, mas que na hora parece a única boia salva-vidas no meio do oceano da agonia.

Em momentos de estabilidade – ah, a estabilidade, essa miragem no deserto da mente –, eu até consigo resistir a esses alívios não saudáveis. O problema é que não existe uma alternativa saudável que seja igualmente potente. O menos danoso, o “mal menor”, é se dopar com Rivotril, como quem apaga um incêndio com um balde de água, sabendo que o fogo ainda está lá, latente. É uma trégua química, não uma solução.

Faz quatro dias que o cochilo virou luxo, não passa de uma hora. O corpo grita por descanso, mas a mente, ah, a mente está em um show de rock pesado, com direito a solo de bateria interminável. Essa contradição, esse cabo de guerra entre o corpo exausto e a mente em ebulição, vai me moendo por dentro. Por fora, até pareço cheio de energia, superprodutivo, um dínamo. Por dentro, sou um trapo, um farrapo de gente.

Levei mais de vinte anos de diagnóstico e quarenta de vida para, finalmente, entender que a bipolaridade não é um defeito de fabricação, mas um traço determinante da minha personalidade. Eu sou isso. Às vezes estarei nesse estado de euforia descompassada, às vezes estarei afundado na depressão. E nem sempre, por mais que eu queira, vou conseguir recorrer às medidas menos danosas. A vida não é um manual de instruções, e a mente, muito menos.

Conviver comigo? É um saco. É difícil para mim, que sou o protagonista desse circo, e é difícil para as outras pessoas, que são a plateia (e às vezes, sem querer, os domadores). Tem vezes que a vontade é gritar para quem eu gosto, com a sinceridade brutal de quem já não tem mais filtro: “AFASTE-SE! SOU BIPOLAR!”. É um aviso, um pedido de socorro, uma confissão. É a minha maneira torta de dizer: “Cuidado, a montanha-russa está em movimento e eu não sei onde fica o freio.”

]]>
A Iniciação aos Quarenta: Velórios e a Nova Contagem da Vida https://viniciusprado.com.br/a-iniciacao-aos-quarenta-velorios-e-a-nova-contagem-da-vida/ Mon, 30 Mar 2026 21:25:58 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=915 Os quarenta, dizem, são os novos vinte. Uma balela, digo eu, que mal pisei na casa nova e já me sinto mais próximo do inevitável, não pela vitalidade, mas pela frequência de certos eventos sociais. O primeiro mês dos meus quarenta anos não veio com a crise existencial prometida pelos filmes americanos, nem com a epifania de uma nova juventude. Não, os meus quarenta chegaram com um convite para o baile de máscaras da mortalidade, onde a fantasia obrigatória era o luto e a trilha sonora, o silêncio constrangedor dos reencontros em capelas.

Em menos de vinte dias, o destino, com seu senso de humor peculiar e sádico, enfileirou uma meia dúzia de partidas. Não eram figuras distantes, daquelas que a gente lamenta com um “que pena” genérico. Eram pessoas próximas, queridas, com quem se dividiu risadas, segredos, sambas e copos de bebida. Cada notificação de falecimento em grupos de WhatsApp de amigos ou de supetão em um stories foi um soco no estômago, um lembrete incômodo de que a fila anda, e anda rápido, especialmente quando você está nela.

Lembro-me de quando os convites eram para batizados. Aquela festa da vida, com cheiro de talco, choro de bebê e a promessa de um futuro que se estendia infinito. As conversas giravam em torno de fraldas, noites mal dormidas e os primeiros passos. Agora, as conversas são sobre lembranças, doenças e a inevitabilidade do fim. A gente se encontra, troca olhares cúmplices de cansaço e tenta encontrar algum consolo em alguma lembrança que ainda parece recente na memória.

Agora a caneta pesa na mão como uma pena afiada e com seu corte cirúrgico para as ironias da vida, expõe a inversão de prioridades sociais. De como a gente passa a frequentar mais velórios do que batizados, e de como essa transição é um rito de passagem silencioso, mas estrondoso. É a vida nos dizendo, sem meias palavras, que a juventude é uma bolha que estoura, e que a maturidade é a arte de colecionar perdas e tentar, ainda assim, encontrar algum sentido na bagunça.

Os quarenta, para mim, chegaram não como a idade do lobo, mas como a idade do luto. Uma iniciação brutal, um batismo às avessas, onde a água benta foi substituída por lágrimas e a promessa de vida, pela certeza da finitude. E enquanto eu tento processar a ausência de tantos, a única certeza que me resta é a de que, a partir de agora, a agenda social estará mais preenchida por despedidas do que por boas-vindas. E que, talvez, o verdadeiro desafio dos quarenta seja aprender a dançar nessa valsa melancólica, com um sorriso triste no rosto e a esperança de que, entre um velório e outro, ainda haja espaço para um brinde à vida, por mais efêmera que ela seja.

]]>
Esperança https://viniciusprado.com.br/esperanca/ Sun, 29 Mar 2026 16:35:40 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=911 Não sou melancólico,
Eu vivo de esperança,
Tenho esperança na esperança
Que não tem base alguma.
Espero esperançoso que um dia
Minha esperança  
Volte  a encontrar base material.
Que  me permita
Esperançoso esperar pela esperança

Vinícius Prado

]]>
Minha intensidade https://viniciusprado.com.br/minha-intensidade/ Sat, 28 Mar 2026 01:02:09 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=908 A intensidade que te encanta
Que a tua alma inflama
E a faz me querer em tua vida
É a mesma que te cansará
E que exausta, aos prantos
Que não dá conta dirá

Vinícius Prado

]]>
Vini, Vina e a Vida! https://viniciusprado.com.br/vini-vina-e-a-vida/ Tue, 24 Mar 2026 23:37:18 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=904 Confesso, caros leitores, que a vida, essa senhora de hábitos peculiares, insiste em nos pregar peças com uma regularidade quase sádica. E, para mim, a mais recente dessas peças veio embalada em um invólucro de plástico, prometendo o conforto de um cachorro-quente e entregando, em vez disso, uma crise existencial digna de um romance russo. Sim, estou falando da vina. E para quem está em dúvida, vina é o que o resto do Brasil chama erroneamente de salsicha. 

Minha odisseia, no entanto, começou bem antes da fatídica descoberta da vina. Exatas doze horas antes, para ser preciso. Foi quando me submeti àquela tortura moderna e necessária que chamamos de terapia. Uma sessão daquelas que, com a precisão de um cirurgião sem anestesia, desmonta cada camada da sua alma, expondo feridas que você jurava estarem cicatrizadas, ou, na melhor das hipóteses, convenientemente esquecidas. E, no auge da minha vulnerabilidade, com o coração em frangalhos e a mente em ebulição, a psicóloga, com a frieza de um carrasco que cumpre seu horário, anuncia: “Nosso tempo acabou. Continuamos na próxima sessão.” A sacana, imagino, seguiu sua rotina, provavelmente abrindo novas crateras na psique de outros incautos, enquanto eu, um campo minado ambulante, era obrigado a retomar a vida como se nada tivesse acontecido. Sem um Band-Aid emocional, sem um Merthiolate para a alma.

O dia, então, desdobrou-se em uma sequência de pequenos desastres, um verdadeiro festival de infortúnios. O home office, que em tempos normais é um refúgio, transformou-se em uma câmara de eco para minhas feridas abertas. Ninguém para conversar, para desviar o foco da minha miséria recém-descoberta. A única companhia era Belchior, o gato, que, em um raro momento de tirania felina, decidiu que nada estava bom. Ração, água, areia – tudo foi rejeitado com a altivez de um monarca insatisfeito. E, claro, em um desses momentos de exigência real, enquanto eu tentava, com a destreza de um desastrado, preparar o almoço, Belchior exigiu sua cota de atenção e submissão. O resultado? Um arroz que, de tão queimado, poderia facilmente ser confundido com carvão ativado. Almoço de campeões, diria eu, se o campeão fosse um piromaníaco.

As derrotas se sucederam com a implacabilidade de um cobrador de impostos. O computador, esse fiel escudeiro da procrastinação, travou no meio de uma tarefa crucial, levando consigo horas de trabalho. Quando, por um milagre da tecnologia, ele ressuscitou, a luz piscou, e, como um castigo divino, arquivos não salvos evaporaram no éter digital. Foi nesse ponto que decidi: chega. Há dias em que a maior produtividade que podemos alcançar é abraçar o fracasso, deitar no chão e lamber as feridas abertas, como um cão sarnento que aceita seu destino.

E para selar o dia com chave de ouro (ou de lata enferrujada, dependendo do ponto de vista), apelei para o último refúgio dos desiludidos: a comida afetiva. Uma Coca-Cola gelada e um cachorro-quente. O bálsamo perfeito para as feridas da alma pós-terapia. Fui ao mercado, com a esperança de um náufrago avistando terra, e lá estava ela: uma vina em promoção, mais barata que as demais. “Enfim, um raio de sorte neste dia de cão!”, pensei, com a ingenuidade de quem ainda acredita em Papai Noel. Terminei as compras, voltando para casa com a mente já saboreando o cachorro-quente redentor.

Mas a vida, como já disse, é uma senhora cruel. Ao guardar as compras, o pacote de vina revelou sua verdadeira face, em letras garrafais que pareciam gritar: “PRODUTO FEITO DE SOJA”. Não que eu tenha algo contra a soja, que fique claro. Mas, convenhamos, uma vina de soja não faz parte do meu repertório de comidas afetivas. E foi nesse instante, com a revelação da traição culinária, que tudo o que eu havia segurado durante o dia – o gato birrento, o arroz carbonizado, os arquivos perdidos, o computador conspirador – desabou sobre minhas feridas abertas como sal em um corte profundo. Não aguentei. As lágrimas, essas traidoras, vieram à tona, um dilúvio de frustração e desilusão.

E aqui estou eu, caros leitores, finalizando esta crônica, ainda enxugando as lágrimas com a dignidade que me resta, enquanto tento, com um esforço hercúleo, criar uma relação afetiva com este cachorro-quente vegano. A vida, ah, a vida. Uma comédia de erros, temperada com um toque agridoce de soja.

]]>
Mais uma estação! https://viniciusprado.com.br/mais-uma-estacao/ Tue, 24 Mar 2026 19:32:07 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=900 já se foi uma estação
e o meu coração não aprendeu a ir junto.

o verão passou por mim
como quem não reconhece —
e eu esperei, em vão,
o calor que só existia
quando você era presença.

o outono chegou sem pedir licença,
e houve em mim uma queda silenciosa,
como se as esperanças
não soubessem mais se sustentar.

o inverno — e digo inverno
como quem confessa um segredo —
chegará no meu peito
com uma frieza que não é do mundo,
mas de dentro.a primavera também virá,
mas eu a pressinto
como quem acredita sem provas:
talvez algo em mim floresça,
ainda que você não volte.

Vinícius Prado

]]>
A Saga do Chorão, Patético e Emocionado https://viniciusprado.com.br/a-saga-do-chorao-patetico-e-emocionado/ Sat, 21 Mar 2026 15:01:03 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=888 Emoções. Essas pequenas criaturas traiçoeiras que habitam nosso peito, prontas para nos transformar em um poço de lágrimas no meio de uma discussão sobre quem lavou a louça, ou em um vulcão de fúria quando o Wi-Fi decide tirar férias. E eu, Vinícius Prado, sou, desde tenra idade, um mestre na arte de sentir. Não um mestre zen, que observa as emoções passarem como nuvens no céu, mas um mestre de obras, que constrói um arranha-céu de sentimentos a cada brisa.

Minha infância, por exemplo, foi um épico molhado. Eu era o menino que chorava. Não chorava pouco, chorava muito. Chorava por bronca dos pais, por briga na rua, ou quando na quinta série fiquei em quarto lugar no concurso de literatura que competia com escola toda. E, claro, nos anos 90, ser o garoto que chorava não me rendia muitos pontos no quesito respeito. A máxima “menino não chora” era um mantra masculino tão sagrado quanto a escalação da seleção brasileira.

Na adolescência, a coisa não melhorou. Sentir tudo intensamente e, pior, não conseguir esconder, era a receita perfeita para o desastre social. Já não bastava a fase de descontentamento com a própria aparência e a revolta com o mundo, eu ainda tinha o bônus de ser o cara que “não controla muito” as emoções. Resultado? Não inspirava respeito dos outros meninos, muito menos admiração das meninas. Era o drama ambulante, o que chorava até com derrota do Rio Branco.

E o mundo do trabalho? Ah, o mundo do trabalho. Aquele templo da racionalidade, da produtividade, onde sentimentos são como unicórnios: bonitos em teoria, mas totalmente fora de lugar na prática. Meu primeiro emprego me ensinou rapidamente que a minha forma de lidar com as emoções não era exatamente um diferencial competitivo. Pelo contrário, era um atestado de inaptidão para a selva corporativa.

Mas eis que, no final da adolescência, surge uma luz no fim do túnel, ou melhor, um diagnóstico: bipolaridade. Vinte anos depois, fui entender que essa “pequena peculiaridade” neurológica explicava muita coisa. O fato de o bipolar sentir tudo mais intensamente não era um defeito de fabricação, mas uma característica inerente ao meu sistema operacional. Mas, claro, essa epifania demorou a chegar.

Durante a vida adulta, a crença de que eu era o errado, o defeituoso, se solidificou. Afinal, um ser humano que chora desde quando está assistindo o filme E.T. até nas discussões de relacionamento e trabalho não pode ser funcional, certo? Errado. Mas eu, na minha sabedoria limitada, escolhi o caminho mais óbvio: reprimir. Reprimir sentimentos, reprimir a forma de expressá-los. E, como toda boa idiotice, essa repressão não se limitou aos sentimentos ruins. Carinho, amor, afeto… tudo foi para o calabouço emocional. Peço perdão, do fundo do meu coração chorão, a todos  e todas que se relacionaram comigo nesse período. Vocês foram vítimas inocentes da minha cruzada contra mim mesmo.

E a inveja? Ah, a inveja. Eu invejava profundamente aqueles seres iluminados que conseguiam reprimir o que sentiam, ou pelo menos não expor, e seguir em frente. Sabe aquela pessoa que leva um pé na bunda, chora três dias e depois, com ares de quem acabou de descobrir a pólvora, declara: “Pronto! Não vou mais sofrer por fulano!”? Eu os via como o ápice da força, da resiliência. E eu, com minhas lágrimas escorrendo pelo rosto, me envergonhava profundamente do que eu era.

Mas o tempo, e muita terapia (bendita terapia!), me trouxeram a clareza. Eu sou o que sou. Vou sentir tudo intensamente, e não há escapatória. Vou expressar tudo o que sinto de maneira intensa, mesmo que isso não seja o ideal em muitas situações. E sim, vou me expor. Não faz parte de mim guardar o que sinto em quatro paredes. Serei taxado de fraco, patético, ridículo? Provavelmente. E, quer saber? Tá tudo bem. Talvez eu seja mesmo. E a liberdade de aceitar isso é impagável.

É libertador entender que esse sou eu: emocionado, intenso, impulsivo, sem medo de me expor. E sobre aqueles “fortes” que reprimem o que sentem e seguem a vida, que um dia invejei? Hoje, agradeço por não ser como eles. Porque se meu peito já se rasga em dor tantas vezes mesmo colocando tudo para fora, se eu tentasse trancar tanta coisa que sinto, certamente já teria morrido. 

Vinícius Prado, o chorão, patético, emocionado, intenso e que expõe demais o que sente. E que, apesar de tudo, está vivo.

]]>
Invejo os que fingem https://viniciusprado.com.br/invejo-os-que-fingem/ Sat, 21 Mar 2026 14:15:20 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=885 Invejo os que fingem não sentir
Invejo os que reprimem dores e amores
Que seguem suas vidas normalmente
Como se nada lhes atravessasse o peito
Eu ao contrário deles sou muito fraco
Sou fraco, paraliso e me exponho
Tudo que me atravessa me corrói,
Me destrói e me despedaça sem disfarces
Na frente se todos salta minha fraqueza e pequenez.

Vinícius Prado

]]>
Mania Besta https://viniciusprado.com.br/mania-besta/ Fri, 20 Mar 2026 14:12:18 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=882 mania besta
essa de bancar vitória
sobre a tristeza

tem noite
que o melhor acordo
é perder bonito

pôr uma música que sangra
baixinho

e deitar com ela
sem briga

abraçar o escuro
até que o sono
faça as pazes por nós

Vinícius Prado

]]>
Te desejo https://viniciusprado.com.br/te-desejo/ Thu, 19 Mar 2026 11:08:34 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=872 Queria ser maduro,
sensato a ponto de
te desejar
somente coisas boas.

Te desejar,
uma incondicional
e plena felicidade,
mesmo que de longe.

Mas na minha Imaturidade,
O egoismo consome
Consigo apenas
Te desejar…

]]>
Às vezes menos é mais! https://viniciusprado.com.br/as-vezes-menos-e-mais/ Wed, 18 Mar 2026 21:03:11 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=869

Certa vez, em um passado não tão distante, mas já envolto na névoa romântica da memória, uma namorada minha, criatura de hábitos e horários apertados, estava prestes a embarcar em alguma aventura que a tiraria de minha vista por alguns dias. A missão, para mim, era clara e, a princípio, simples: abastecer a despensa portátil dela com as guloseimas que adoçariam a viagem. Um ato de amor, um gesto de carinho, um mero passeio ao supermercado. Ah, a inocência daquele que subestima a complexidade do universo dos doces!

Fui ao mercado com a alma de um curador de delícias, um sommelier de quitutes. Não era apenas comprar; era selecionar, escolher a dedo, com a precisão de um cirurgião e a paixão de um poeta. Peguei tudo o que ela mais gostava, os biscoitos que desmanchavam na boca, os salgadinhos que crocavam na medida certa, as balas que explodiam em sabor. Eu estava no meu elemento, um verdadeiro artífice do carrinho de compras.

Então, cheguei à seção dos chocolates. O paraíso dos pecadores, o purgatório dos indecisos. Eu sabia, com a certeza de quem ama e observa, que o coração dela batia mais forte pelo chocolate 70% cacau. Uma escolha sofisticada, um amargor elegante, um toque de maturidade, bem diferente da minha predileção por guarda-chuvinhas de chocolate hidrogenado. Estava eu, com a mão estendida para o habitual, quando, num relance, meus olhos foram fisgados por uma embalagem ao lado. “100% Cacau”, dizia, em letras garrafais, com uma aura de pureza e intensidade.

E foi aí que a lógica, essa traiçoeira, me pregou uma peça. Se 70% era bom, imagine 100%! A matemática do amor, pensei eu, é exponencial. Se ela gosta do 70%, do 100% ela vai amar! Eu ia arrasar, ia ser o namorado do ano, o gênio incompreendido que elevou o patamar do chocolate a um nível jamais imaginado. A surpresa perfeita, o toque de audácia que faltava na minha performance de comprador de guloseimas. Ela passaria a viagem pensando em como a surpreendi.

Mal sabia eu, pobre mortal, que aquela barra não era chocolate. Não era para ser comida assim, na inocência de um lanche de viagem. Era cacau puro, em sua forma mais bruta e intransigente. Uma matéria-prima, um ingrediente para alquimias culinárias, não um deleite imediato. Era como comprar um tijolo achando que era um bolo de chocolate porque ambos são marrons e sólidos. A ignorância, por vezes, é uma bênção, mas, nesse caso, foi uma armadilha.

Quando entreguei o pacote, com a pompa de quem apresenta um tesouro, e ela desvendou o mistério do “chocolate” 100%, o riso dela ecoou. Um riso que misturava o divertimento com uma pontinha de incredulidade. Deve ter me achado ao mesmo tempo, o sujeito mais burro do mundo e talvez um pouco fofo. Burro pela ingenuidade gastronômica, fofo pela intenção de surpreender. Espero eu!

E assim, entre risos e a constatação de que nem todo cacau é chocolate, aprendi a lição. Aquela velha máxima, sussurrada pelos sábios e confirmada pelos desastrados: às vezes, menos é mais. Especialmente quando o assunto é cacau e a expectativa é de um doce prazer, e não de uma experiência quase científica. A vida, afinal, é feita dessas pequenas crônicas, onde a boa intenção pavimenta o caminho para as mais saborosas gafes.

]]>
Versos Quebrados https://viniciusprado.com.br/versos-quebrados/ Mon, 16 Mar 2026 14:36:04 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=809

Eu me lembro, sim, daquelas noites,
quando a tinta escorria como suor frio
sobre o papel amassado,
palavras de amor, de fogo, de um tesão que parecia eterno.
Era fofo, diziam. Ela sorria, os olhos brilhando,
e a paixão, ah, a paixão,
inchava como um rio depois da chuva.

Eu era o poeta, o amante, o louco.
E ela, a musa, a deusa, a razão.

Mas o tempo, esse filho da puta,
tem um jeito cruel de rir da gente.
As palavras, antes mel, agora são fel.
Os versos, que prometiam eternidade,
são apenas trapos, poeira, nada.

Ela não lê mais. Não sente mais.
Talvez nem se lembre.
E cada linha que escrevi,
cada metáfora, cada rima,
agora é um tapa na minha cara,
uma facada no peito,
lembrando-me da minha própria estupidez.

Nunca mais, eu juro, nunca mais.
Não há poesia que segure um amor que se foi.
Só resta o vazio, a garrafa,
e a lição amarga de que alguns sentimentos
deveriam ter ficado trancados,
bem lá no fundo,
onde ninguém pudesse ver,
muito menos eu.


Vinícius Prado

]]>
Entorpecido https://viniciusprado.com.br/entorpecido/ Sun, 15 Mar 2026 18:33:00 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=878 Ingênuo, durante anos
Acreditei piamente
Que o me embriagava
Eram os fartos copos

Tolo, por muito tempo
Tinha a plena certeza
Que o que me entorpecia
Eram as caras substâncias

Hoje, já menos parvo
Vejo que o que me embriaga
É povo lotando a rua!
E o que me entorpece
É samba na palma da mão!

Vinicius Prado

]]>
Nem todo mundo dá trela ao Trello! https://viniciusprado.com.br/nem-todo-mundo-da-trela-ao-trello/ Sat, 14 Mar 2026 14:32:26 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=806 Reuniões online. O palco moderno para os dramas corporativos, onde a realidade se dobra e se retorce sob o peso da banda larga instável e das ambições gerenciais. E foi em um desses cenários etéreos, entre a promessa de eficiência e a inevitável colisão com a vida real, que se desenrolou a epopeia de Dona Burocracia e o Senhor Operacional.

Dona Burocracia, uma figura quase mítica da área administrativa, era a personificação da fé inabalável nos processos. Para ela, a vida era um fluxograma, e a salvação, um software de gestão de tarefas. Há três reuniões consecutivas, ela vinha pregando o evangelho do Trello, essa ferramenta digital que prometia organizar o caos, transformar a desordem em cartões coloridos e, quem sabe, até curar a calvície. A cada slide, um novo argumento, a cada pausa, um olhar de expectativa, como se a simples menção do Trello fosse capaz de operar milagres na produtividade alheia. Ela, coitada, desconectara a burocracia da realidade há tanto tempo que já não sabia onde terminava o organograma e começava a vida.

E então, veio o momento da verdade. Com a voz carregada de uma autoridade que só a fé cega em um aplicativo pode conferir, Dona Burocracia mirou seu alvo: o Senhor Operacional. Um homem que, pela sua descrição, parecia ter visto mais chão de fábrica do que telas de computador, mais planilhas de papel do que interfaces digitais. A pergunta, proferida com a confiança de quem espera uma resposta óbvia, ecoou na sala virtual: “Fulano, você está no Trello?”.

O silêncio que se seguiu não foi o silêncio respeitoso de quem pondera, mas o silêncio constrangedor de quem testemunha um choque de mundos. Era como se a pergunta, tão simples na sua formulação, tivesse atravessado um portal dimensional e aterrissado em uma realidade paralela. E a resposta do Senhor Operacional, ah, a resposta! “Não, eu estou no sindicato dos portuários na rua Javari.”

Um silêncio sepulcral. Aquele tipo de silêncio que faz você ouvir o próprio coração batendo, ou, no caso, o som da sua própria alma se contorcendo em uma risada abafada. Risadas de canto de boca, olhares furtivos, a tela do Zoom se transformando em um campo minado de emoções contidas. Dona Burocracia, em sua bolha de processos e organogramas, parecia ter recebido um choque de realidade. O Trello, essa panaceia digital, não era universal. Não era para todos. Não era para quem estava na rua Javari, no sindicato dos portuários.

Enquanto Dona Burocracia se esforçava para encaixar a vida em caixinhas digitais, o Senhor Operacional, com sua simplicidade brutal, revelou a verdade inconveniente: a vida real, com seus sindicatos, suas ruas Javaris e suas demandas palpáveis, muitas vezes se recusa a ser digitalizada. A burocracia, quando desconectada da realidade, torna-se uma comédia de erros, onde a eficiência prometida se dissolve em um mar de mal-entendidos. E, no fim das contas, talvez a maior organização seja saber onde está o sindicato dos portuários quando a vida te chama para fora da tela.

]]>