bipolaridade – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br Contos, Crônicas e Poesias Thu, 02 Apr 2026 21:22:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://viniciusprado.com.br/wp-content/uploads/2026/03/cropped-cropped-logo_vinicius_prado_2-removebg-preview-32x32.png bipolaridade – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br 32 32 AFASTE-SE BIPOLAR! https://viniciusprado.com.br/afaste-se-bipolar/ Thu, 02 Apr 2026 21:22:40 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=920

Sabe aquela hora em que a vida vira um turbilhão de abas abertas no navegador da mente? Aquela pilha de “coisas pra pensar” que cresce mais rápido que a conta do cartão de crédito? A gente só quer cinco minutos. Cinco míseros minutos para o cérebro fazer um “reset”, como quem desliga e liga o roteador da alma. Tem gente que fuma, com aquela pose de quem resolveu o enigma do universo na fumaça. Outros meditam, flutuando em um nirvana particular, enquanto a gente aqui mal consegue parar de roer a unha. Há os que se afogam nas redes sociais, num scroll infinito que, paradoxalmente, só aumenta o barulho. E tem os iluminados que simplesmente não fazem nada e, pasmem, voltam aos afazeres com a cabeça mais leve. Eu, sinceramente, invejo essa gente.

Para mim, o que chamam de hipomania é exatamente isso: a cabeça em rotação máxima, um liquidificador de pensamentos sem tampa, e nada, absolutamente nada, consegue me dar essa sensação de “desconectar por 5 minutos”. É como se o botão de pausa estivesse quebrado, ou pior, nunca tivesse existido. A sensação é que só um terremoto emocional, um tsunami de sensações, seria capaz de me dar um alívio, um respiro. Uma daquelas “ondas” que te levam para longe, nem que seja por um instante.

E é aí que a gente se joga. No álcool, que promete um abraço quente e traiçoeiro. Nas drogas, que acenam com um paraíso efêmero. Nas festas, onde o barulho ensurdecedor tenta abafar o barulho interno. Nas compras descontroladas, porque um novo par de sapatos ou um gadget inútil parecem, por um breve momento, preencher o vazio. São todos recursos que liberam “ondas” gigantescas de prazer, um prazer que vem com a conta, claro, mas que na hora parece a única boia salva-vidas no meio do oceano da agonia.

Em momentos de estabilidade – ah, a estabilidade, essa miragem no deserto da mente –, eu até consigo resistir a esses alívios não saudáveis. O problema é que não existe uma alternativa saudável que seja igualmente potente. O menos danoso, o “mal menor”, é se dopar com Rivotril, como quem apaga um incêndio com um balde de água, sabendo que o fogo ainda está lá, latente. É uma trégua química, não uma solução.

Faz quatro dias que o cochilo virou luxo, não passa de uma hora. O corpo grita por descanso, mas a mente, ah, a mente está em um show de rock pesado, com direito a solo de bateria interminável. Essa contradição, esse cabo de guerra entre o corpo exausto e a mente em ebulição, vai me moendo por dentro. Por fora, até pareço cheio de energia, superprodutivo, um dínamo. Por dentro, sou um trapo, um farrapo de gente.

Levei mais de vinte anos de diagnóstico e quarenta de vida para, finalmente, entender que a bipolaridade não é um defeito de fabricação, mas um traço determinante da minha personalidade. Eu sou isso. Às vezes estarei nesse estado de euforia descompassada, às vezes estarei afundado na depressão. E nem sempre, por mais que eu queira, vou conseguir recorrer às medidas menos danosas. A vida não é um manual de instruções, e a mente, muito menos.

Conviver comigo? É um saco. É difícil para mim, que sou o protagonista desse circo, e é difícil para as outras pessoas, que são a plateia (e às vezes, sem querer, os domadores). Tem vezes que a vontade é gritar para quem eu gosto, com a sinceridade brutal de quem já não tem mais filtro: “AFASTE-SE! SOU BIPOLAR!”. É um aviso, um pedido de socorro, uma confissão. É a minha maneira torta de dizer: “Cuidado, a montanha-russa está em movimento e eu não sei onde fica o freio.”

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A Saga do Chorão, Patético e Emocionado https://viniciusprado.com.br/a-saga-do-chorao-patetico-e-emocionado/ Sat, 21 Mar 2026 15:01:03 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=888 Emoções. Essas pequenas criaturas traiçoeiras que habitam nosso peito, prontas para nos transformar em um poço de lágrimas no meio de uma discussão sobre quem lavou a louça, ou em um vulcão de fúria quando o Wi-Fi decide tirar férias. E eu, Vinícius Prado, sou, desde tenra idade, um mestre na arte de sentir. Não um mestre zen, que observa as emoções passarem como nuvens no céu, mas um mestre de obras, que constrói um arranha-céu de sentimentos a cada brisa.

Minha infância, por exemplo, foi um épico molhado. Eu era o menino que chorava. Não chorava pouco, chorava muito. Chorava por bronca dos pais, por briga na rua, ou quando na quinta série fiquei em quarto lugar no concurso de literatura que competia com escola toda. E, claro, nos anos 90, ser o garoto que chorava não me rendia muitos pontos no quesito respeito. A máxima “menino não chora” era um mantra masculino tão sagrado quanto a escalação da seleção brasileira.

Na adolescência, a coisa não melhorou. Sentir tudo intensamente e, pior, não conseguir esconder, era a receita perfeita para o desastre social. Já não bastava a fase de descontentamento com a própria aparência e a revolta com o mundo, eu ainda tinha o bônus de ser o cara que “não controla muito” as emoções. Resultado? Não inspirava respeito dos outros meninos, muito menos admiração das meninas. Era o drama ambulante, o que chorava até com derrota do Rio Branco.

E o mundo do trabalho? Ah, o mundo do trabalho. Aquele templo da racionalidade, da produtividade, onde sentimentos são como unicórnios: bonitos em teoria, mas totalmente fora de lugar na prática. Meu primeiro emprego me ensinou rapidamente que a minha forma de lidar com as emoções não era exatamente um diferencial competitivo. Pelo contrário, era um atestado de inaptidão para a selva corporativa.

Mas eis que, no final da adolescência, surge uma luz no fim do túnel, ou melhor, um diagnóstico: bipolaridade. Vinte anos depois, fui entender que essa “pequena peculiaridade” neurológica explicava muita coisa. O fato de o bipolar sentir tudo mais intensamente não era um defeito de fabricação, mas uma característica inerente ao meu sistema operacional. Mas, claro, essa epifania demorou a chegar.

Durante a vida adulta, a crença de que eu era o errado, o defeituoso, se solidificou. Afinal, um ser humano que chora desde quando está assistindo o filme E.T. até nas discussões de relacionamento e trabalho não pode ser funcional, certo? Errado. Mas eu, na minha sabedoria limitada, escolhi o caminho mais óbvio: reprimir. Reprimir sentimentos, reprimir a forma de expressá-los. E, como toda boa idiotice, essa repressão não se limitou aos sentimentos ruins. Carinho, amor, afeto… tudo foi para o calabouço emocional. Peço perdão, do fundo do meu coração chorão, a todos  e todas que se relacionaram comigo nesse período. Vocês foram vítimas inocentes da minha cruzada contra mim mesmo.

E a inveja? Ah, a inveja. Eu invejava profundamente aqueles seres iluminados que conseguiam reprimir o que sentiam, ou pelo menos não expor, e seguir em frente. Sabe aquela pessoa que leva um pé na bunda, chora três dias e depois, com ares de quem acabou de descobrir a pólvora, declara: “Pronto! Não vou mais sofrer por fulano!”? Eu os via como o ápice da força, da resiliência. E eu, com minhas lágrimas escorrendo pelo rosto, me envergonhava profundamente do que eu era.

Mas o tempo, e muita terapia (bendita terapia!), me trouxeram a clareza. Eu sou o que sou. Vou sentir tudo intensamente, e não há escapatória. Vou expressar tudo o que sinto de maneira intensa, mesmo que isso não seja o ideal em muitas situações. E sim, vou me expor. Não faz parte de mim guardar o que sinto em quatro paredes. Serei taxado de fraco, patético, ridículo? Provavelmente. E, quer saber? Tá tudo bem. Talvez eu seja mesmo. E a liberdade de aceitar isso é impagável.

É libertador entender que esse sou eu: emocionado, intenso, impulsivo, sem medo de me expor. E sobre aqueles “fortes” que reprimem o que sentem e seguem a vida, que um dia invejei? Hoje, agradeço por não ser como eles. Porque se meu peito já se rasga em dor tantas vezes mesmo colocando tudo para fora, se eu tentasse trancar tanta coisa que sinto, certamente já teria morrido. 

Vinícius Prado, o chorão, patético, emocionado, intenso e que expõe demais o que sente. E que, apesar de tudo, está vivo.

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