crônica – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br Contos, Crônicas e Poesias Sat, 21 Mar 2026 15:01:04 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://viniciusprado.com.br/wp-content/uploads/2026/03/cropped-cropped-logo_vinicius_prado_2-removebg-preview-32x32.png crônica – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br 32 32 A Saga do Chorão, Patético e Emocionado https://viniciusprado.com.br/a-saga-do-chorao-patetico-e-emocionado/ Sat, 21 Mar 2026 15:01:03 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=888 Emoções. Essas pequenas criaturas traiçoeiras que habitam nosso peito, prontas para nos transformar em um poço de lágrimas no meio de uma discussão sobre quem lavou a louça, ou em um vulcão de fúria quando o Wi-Fi decide tirar férias. E eu, Vinícius Prado, sou, desde tenra idade, um mestre na arte de sentir. Não um mestre zen, que observa as emoções passarem como nuvens no céu, mas um mestre de obras, que constrói um arranha-céu de sentimentos a cada brisa.

Minha infância, por exemplo, foi um épico molhado. Eu era o menino que chorava. Não chorava pouco, chorava muito. Chorava por bronca dos pais, por briga na rua, ou quando na quinta série fiquei em quarto lugar no concurso de literatura que competia com escola toda. E, claro, nos anos 90, ser o garoto que chorava não me rendia muitos pontos no quesito respeito. A máxima “menino não chora” era um mantra masculino tão sagrado quanto a escalação da seleção brasileira.

Na adolescência, a coisa não melhorou. Sentir tudo intensamente e, pior, não conseguir esconder, era a receita perfeita para o desastre social. Já não bastava a fase de descontentamento com a própria aparência e a revolta com o mundo, eu ainda tinha o bônus de ser o cara que “não controla muito” as emoções. Resultado? Não inspirava respeito dos outros meninos, muito menos admiração das meninas. Era o drama ambulante, o que chorava até com derrota do Rio Branco.

E o mundo do trabalho? Ah, o mundo do trabalho. Aquele templo da racionalidade, da produtividade, onde sentimentos são como unicórnios: bonitos em teoria, mas totalmente fora de lugar na prática. Meu primeiro emprego me ensinou rapidamente que a minha forma de lidar com as emoções não era exatamente um diferencial competitivo. Pelo contrário, era um atestado de inaptidão para a selva corporativa.

Mas eis que, no final da adolescência, surge uma luz no fim do túnel, ou melhor, um diagnóstico: bipolaridade. Vinte anos depois, fui entender que essa “pequena peculiaridade” neurológica explicava muita coisa. O fato de o bipolar sentir tudo mais intensamente não era um defeito de fabricação, mas uma característica inerente ao meu sistema operacional. Mas, claro, essa epifania demorou a chegar.

Durante a vida adulta, a crença de que eu era o errado, o defeituoso, se solidificou. Afinal, um ser humano que chora desde quando está assistindo o filme E.T. até nas discussões de relacionamento e trabalho não pode ser funcional, certo? Errado. Mas eu, na minha sabedoria limitada, escolhi o caminho mais óbvio: reprimir. Reprimir sentimentos, reprimir a forma de expressá-los. E, como toda boa idiotice, essa repressão não se limitou aos sentimentos ruins. Carinho, amor, afeto… tudo foi para o calabouço emocional. Peço perdão, do fundo do meu coração chorão, a todos  e todas que se relacionaram comigo nesse período. Vocês foram vítimas inocentes da minha cruzada contra mim mesmo.

E a inveja? Ah, a inveja. Eu invejava profundamente aqueles seres iluminados que conseguiam reprimir o que sentiam, ou pelo menos não expor, e seguir em frente. Sabe aquela pessoa que leva um pé na bunda, chora três dias e depois, com ares de quem acabou de descobrir a pólvora, declara: “Pronto! Não vou mais sofrer por fulano!”? Eu os via como o ápice da força, da resiliência. E eu, com minhas lágrimas escorrendo pelo rosto, me envergonhava profundamente do que eu era.

Mas o tempo, e muita terapia (bendita terapia!), me trouxeram a clareza. Eu sou o que sou. Vou sentir tudo intensamente, e não há escapatória. Vou expressar tudo o que sinto de maneira intensa, mesmo que isso não seja o ideal em muitas situações. E sim, vou me expor. Não faz parte de mim guardar o que sinto em quatro paredes. Serei taxado de fraco, patético, ridículo? Provavelmente. E, quer saber? Tá tudo bem. Talvez eu seja mesmo. E a liberdade de aceitar isso é impagável.

É libertador entender que esse sou eu: emocionado, intenso, impulsivo, sem medo de me expor. E sobre aqueles “fortes” que reprimem o que sentem e seguem a vida, que um dia invejei? Hoje, agradeço por não ser como eles. Porque se meu peito já se rasga em dor tantas vezes mesmo colocando tudo para fora, se eu tentasse trancar tanta coisa que sinto, certamente já teria morrido. 

Vinícius Prado, o chorão, patético, emocionado, intenso e que expõe demais o que sente. E que, apesar de tudo, está vivo.

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