vina – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br Contos, Crônicas e Poesias Sat, 28 Mar 2026 01:03:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://viniciusprado.com.br/wp-content/uploads/2026/03/cropped-cropped-logo_vinicius_prado_2-removebg-preview-32x32.png vina – Vinícius Prado https://viniciusprado.com.br 32 32 Vini, Vina e a Vida! https://viniciusprado.com.br/vini-vina-e-a-vida/ Tue, 24 Mar 2026 23:37:18 +0000 https://viniciusprado.com.br/?p=904 Confesso, caros leitores, que a vida, essa senhora de hábitos peculiares, insiste em nos pregar peças com uma regularidade quase sádica. E, para mim, a mais recente dessas peças veio embalada em um invólucro de plástico, prometendo o conforto de um cachorro-quente e entregando, em vez disso, uma crise existencial digna de um romance russo. Sim, estou falando da vina. E para quem está em dúvida, vina é o que o resto do Brasil chama erroneamente de salsicha. 

Minha odisseia, no entanto, começou bem antes da fatídica descoberta da vina. Exatas doze horas antes, para ser preciso. Foi quando me submeti àquela tortura moderna e necessária que chamamos de terapia. Uma sessão daquelas que, com a precisão de um cirurgião sem anestesia, desmonta cada camada da sua alma, expondo feridas que você jurava estarem cicatrizadas, ou, na melhor das hipóteses, convenientemente esquecidas. E, no auge da minha vulnerabilidade, com o coração em frangalhos e a mente em ebulição, a psicóloga, com a frieza de um carrasco que cumpre seu horário, anuncia: “Nosso tempo acabou. Continuamos na próxima sessão.” A sacana, imagino, seguiu sua rotina, provavelmente abrindo novas crateras na psique de outros incautos, enquanto eu, um campo minado ambulante, era obrigado a retomar a vida como se nada tivesse acontecido. Sem um Band-Aid emocional, sem um Merthiolate para a alma.

O dia, então, desdobrou-se em uma sequência de pequenos desastres, um verdadeiro festival de infortúnios. O home office, que em tempos normais é um refúgio, transformou-se em uma câmara de eco para minhas feridas abertas. Ninguém para conversar, para desviar o foco da minha miséria recém-descoberta. A única companhia era Belchior, o gato, que, em um raro momento de tirania felina, decidiu que nada estava bom. Ração, água, areia – tudo foi rejeitado com a altivez de um monarca insatisfeito. E, claro, em um desses momentos de exigência real, enquanto eu tentava, com a destreza de um desastrado, preparar o almoço, Belchior exigiu sua cota de atenção e submissão. O resultado? Um arroz que, de tão queimado, poderia facilmente ser confundido com carvão ativado. Almoço de campeões, diria eu, se o campeão fosse um piromaníaco.

As derrotas se sucederam com a implacabilidade de um cobrador de impostos. O computador, esse fiel escudeiro da procrastinação, travou no meio de uma tarefa crucial, levando consigo horas de trabalho. Quando, por um milagre da tecnologia, ele ressuscitou, a luz piscou, e, como um castigo divino, arquivos não salvos evaporaram no éter digital. Foi nesse ponto que decidi: chega. Há dias em que a maior produtividade que podemos alcançar é abraçar o fracasso, deitar no chão e lamber as feridas abertas, como um cão sarnento que aceita seu destino.

E para selar o dia com chave de ouro (ou de lata enferrujada, dependendo do ponto de vista), apelei para o último refúgio dos desiludidos: a comida afetiva. Uma Coca-Cola gelada e um cachorro-quente. O bálsamo perfeito para as feridas da alma pós-terapia. Fui ao mercado, com a esperança de um náufrago avistando terra, e lá estava ela: uma vina em promoção, mais barata que as demais. “Enfim, um raio de sorte neste dia de cão!”, pensei, com a ingenuidade de quem ainda acredita em Papai Noel. Terminei as compras, voltando para casa com a mente já saboreando o cachorro-quente redentor.

Mas a vida, como já disse, é uma senhora cruel. Ao guardar as compras, o pacote de vina revelou sua verdadeira face, em letras garrafais que pareciam gritar: “PRODUTO FEITO DE SOJA”. Não que eu tenha algo contra a soja, que fique claro. Mas, convenhamos, uma vina de soja não faz parte do meu repertório de comidas afetivas. E foi nesse instante, com a revelação da traição culinária, que tudo o que eu havia segurado durante o dia – o gato birrento, o arroz carbonizado, os arquivos perdidos, o computador conspirador – desabou sobre minhas feridas abertas como sal em um corte profundo. Não aguentei. As lágrimas, essas traidoras, vieram à tona, um dilúvio de frustração e desilusão.

E aqui estou eu, caros leitores, finalizando esta crônica, ainda enxugando as lágrimas com a dignidade que me resta, enquanto tento, com um esforço hercúleo, criar uma relação afetiva com este cachorro-quente vegano. A vida, ah, a vida. Uma comédia de erros, temperada com um toque agridoce de soja.

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