Fazer quarenta anos é uma experiência curiosa. Aos vinte, a gente acredita que está atrasado porque ainda não publicou um livro, não comprou um apartamento e não descobriu exatamente qual é a sua missão na Terra. Aos trinta, percebe que talvez a missão seja apenas pagar o aluguel em dia. Aos quarenta, recebe a confirmação oficial de que a missão, por enquanto, é lembrar a senha do banco.
A data chega sem fazer barulho, mas bate na cara com a delicadeza de um fiscal da Receita Federal. Você acorda, olha para o teto e pensa: “Pronto. Agora começou o enta”. Quarenta, cinquenta, sessenta — essa família de números que parece ter sido inventada por alguém que queria transformar aniversários em ameaça.
Até então, a idade vinha acompanhada de promessas. Aos vinte, tudo ainda era possível. Eu podia ser escritor, músico, empresário, astronauta ou, em último caso, alguém que entendesse de vinhos. Aos trinta, ainda havia tempo. Bastava organizar a vida, fazer um curso, montar um plano, economizar dinheiro e parar de comprar coisas inúteis na internet — providências que, naturalmente, não foram tomadas.
O problema é que, aos quarenta, os sonhos começam a pedir prestação de contas. Eles aparecem na porta com uma pasta de documentos:
— Viemos falar sobre aquele projeto de vida.
— Qual deles?
— O de ser uma pessoa realizada.
— Ah, esse. Então… houve alguns imprevistos.
O projeto, coitado, foi feito aos vinte, reformado aos trinta e poucos e abandonado em algum lugar entre uma troca de emprego e uma assinatura de streaming. Tinha metas ousadas: viajar o mundo, escrever um romance, aprender francês, correr uma maratona e morar numa casa com jardim. Hoje, se eu consigo regar uma planta sem esquecer, já considero uma vitória internacional.
Aos quarenta, a gente começa a entender que certos sonhos não vão se realizar. Não porque sejam impossíveis, mas porque exigem uma energia que foi investida em tarefas menos glamorosas, como resolver problemas no aplicativo do banco, procurar a chave de casa e descobrir por que a luz da geladeira está acesa.
Também há o corpo. Aos vinte, ele era um instrumento. Aos trinta, uma máquina que precisava de manutenção. Aos quarenta, é um grupo de WhatsApp cheio de notificações: joelho reclamando, lombar mandando áudio, estômago encaminhando alerta de segurança. Você se abaixa para pegar uma meia e, antes de levantar, precisa negociar com todas as articulações envolvidas.
Mas o que realmente assusta não é descobrir que alguns sonhos ficaram pelo caminho. É perceber que já não se acredita neles com a mesma convicção. Aos vinte, eu achava que bastava querer. Aos trinta, achei que bastava insistir. Aos quarenta, descobri que talvez também fosse necessário saber exatamente o que se quer — o que é uma exigência injusta para quem ainda não sabe onde deixou os óculos.
A descrença é mais dolorida que o fracasso. O fracasso ainda tem uma certa dignidade: você tentou, caiu, fez uma planilha, assistiu a três vídeos motivacionais e não deu certo. Já a falta de fé é mais silenciosa. Ela não derruba a porta; apenas começa a não atender quando o sonho liga.
Mesmo assim, há uma vantagem nos quarenta. A gente finalmente percebe que a vida não é uma prova de múltipla escolha, embora continue parecendo uma prova para a qual esqueceram de entregar o gabarito. Talvez amadurecer seja trocar a obrigação de realizar todos os sonhos pela liberdade de escolher alguns — e aceitar que outros podem ficar dormindo, sem que isso signifique que a vida deu errado.
Afinal, ainda há tempo. Não para tudo, é verdade. Provavelmente não vou ser jogador de futebol, astronauta ou bailarino clássico. Mas ainda posso aprender francês, escrever alguma coisa e comprar uma planta que sobreviva à minha rotina. Para alguém que chegou aos quarenta sem perder completamente o humor, já é um começo bastante promissor.
E, se não for, tudo bem. Amanhã eu tento de novo. Depois de tomar um anti-inflamatório.