Pálpebras rasgadas
Hoje o acaso abriu a porta
sem bater
e enfiou luz demais
nos meus olhos cansados.
então eu vi você.
de longe,
como se vê um animal perigoso
quando a gente está sozinho
e sem nenhuma arma
além do silêncio.
você estava ali,
parada no meio do mundo,
bebendo a luz da tarde
como se ela tivesse sido feita
para você.
não havia pressa,
medo,
nem desinibição alguma.
eu, por outro lado,
era só uma hiena mal alimentada,
dessas que conhecem o gosto
das sobras
e ainda assim fingem
que não têm fome.
fiz o que sempre faço:
mantive distância,
abaixei os olhos,
deixei o desejo apodrecer
em algum lugar desses versos.
você continuou brilhando.
eu continuei vivo,
que às vezes
é a forma mais miserável
de perder alguém.
Vinícius Prado