Menu fechado

Meu pequeno Breaking Bad

Essa crônica poderia ser sobre políticas públicas de drogas, mas não é, quero falar sobre a minha relação com doces, salgadinhos, refrigerantes e tudo aquilo que as nossas mães nas décadas de 80 e 90 chamavam de “porcaria”, talvez os mais jovens estranhem o conceito, mas quem cresceu nessa época muito provavelmente ouviu algumas vezes coisas como “para de comer ‘porcaria’ senão vai estragar o almoço”.
Eu sou o primeiro filho de uma mãe jovem, que era antenada aos debates mais “modernos” da sua época, e que como todos jovens, quando chega a vez de ser adulto quer fazer diferente e melhor que a gerações anteriores, e minha mãe decidiu aplicar as teorias de alimentação saudável da época comigo e meu irmão três anos mais novo.

Agora imaginem se hoje em dia é difícil blindar uma criança do consumo das tais “porcarias”, imaginem nos anos 80/90? Não era uma tarefa fácil, e nem bem vista, mas minha mãe teve relativo sucesso nos mantendo longe dessas drogas malditas nos primeiros anos de vida. Mas foram surgindo alguns obstáculos no caminho.

O primeiro obstáculo, ou primeiros, no plural mesmo, talvez tenham sido os avós, afinal que avô e avó não gostam de entupir seus netos queridos de “porcarias”? Não meu avô paterno, que enganava a gente com teorias como a de que o chiclete é feito de saco de boi, para ficarmos com nojo de “porcarias” e ele não precisar comprar pra gente. Porém meus avós maternos.

Do lado da minha mãe meu avô era um bon vivant que sempre queria agradar os netos, sempre trabalhou como autônomo, com vendas, e a certa altura tinha uma “distribuidora de doces”, na verdade os doces e salgadinhos eram estocados em casa e ele saia vendendo em bares e pequenos comércios com sua kombi, muitas vezes fiz essas rotas com ele, que eram emocionantes e saborosas, ele nunca negava um pedido. 

Certa vez, depois de um dia intenso de visitas a clientes, doces, salgadinhos, refrigerante, e alimentação duvidosa com meu avô, ao retornarmos para casa dele e de minha avó, inevitável aconteceu, uma bela dor de barriga ou “piriri” como ele dizia, não lembro direito, devia ter uns 6 ou 7 anos, mas tenho a memória dele inventar algo para minha mãe para dormir na casa deles para que minha mãe não descobrisse a dor de barriga por overdose de “porcarias”.

Diante da pressão externa minha mãe foi construindo políticas de redução de danos, ou mediações como ela chamava, podia bolacha recheada, mas cada um podia escolher um pacote a cada compra do mês (aí outro conceito que talvez os mais jovens não conheçam), refrigerante liberado uma garrafa de litro no almoço de domingo, salgadinhos apenas quando íamos viajar para comer na estrada, e coisas do tipo.

Mas os obstáculos foram aumentando, e as ofertas de “porcarias” cada vez maiores e mais distantes do controle de minha mãe, enquanto eu tinha que administrar um pacote de bolacha recheada a cada compra, na casa dos amigos da rua tinham estoques disponíveis em armários, na escola, só quem viveu sabe o que era uma cantina de colégio público nos anos 90, doces, salgados fritos, balas, paçocas, refrigerantes, tudo que havia de disponível em “porcarias” pesadas.

E como todo mundo que é educado para abstinência, quando tem acesso ao fruto proibido se esbalda, lembro que quando entrou o plano real, é entrei na escola ainda era cruzeiro, com 1 real eu comprava na escola um “pão com molho”, que era uma espécie de cachorro quente de carne moída, uma coca de garrafinha (de vidro), e ainda sobrava para para pegar troco em balas, paçocas e doces.

Meu irmão vinha crescendo e passando pelos mesmos obstáculos, políticas de redução de danos e oportunidades de se esbaldar no mundo mágico das “porcarias”. Até que o destino, esse danado, nos abriu uma oportunidade de mudar o patamar da nossa relação com as “porcarias”.

Meu pai, assim como meu avô materno, também trabalhava com vendas, trabalhou muitos anos em uma indústria de utilidades domésticas, mas o destino o levou a trabalhar em uma fábrica de salgadinhos, daqueles bem vagabundos, hoje seriam chamados de Cheetos da Shopee, e de repente nossa casa estava inundada de fardos de salgadinhos e pipocas doces, aquelas do pacotinho rosa que eram objeto de desejo da criançada.

Meu pai sempre um defensor da meritocracia e livre mercado, começou incentivar a mim e ao meu irmão a vender essas “porcarias” aos amigos da rua, naquela época a gente passava boa parte do dia na rua de casa brincando com a criançada da rua, ainda mais a gente que morava numa cidade no oeste do Paraná longe dos grandes centros.

Em pouco tempo eu, e acredito que meu irmão também, começamos a perceber que controlar a “boca” de “porcarias” da região nos dava mais que dinheiro, dava poder, de repente passamos a ser tratados melhor, se alguém brigava com a gente sempre tinha outros pra defender, éramos escolhidos sempre no primeiro time no futebol. Eu senti o auge do poder quando eu impedi que um valentão batesse em um amigo meu da escola com o poder da minha mercadoria, e mais do que isso, passamos a ter um segurança na escola.

É meus caros, esse é mais um exemplo de como política de abstinência total, sempre empurra as pessoas cada vez mais para o mundo das “porcarias”, e as vezes não tem volta, felizmente ou infelizmente nosso pequeno “Breaking Bad Oeste do Paraná” foi desestruturado quando nossa família mudou para Curitiba.