Eu poderia escrever sobre as mulheres que amei,
as noites que sangrei em copos sujos,
as ressacas que me esfaquearam pela manhã.Mas hoje escrevo sobre você,
sobre nós dois,
bêbados na sarjeta das ideias,
fumando o resto dos nossos sonhos,
desabando um no outro
sem medo de cair.Você sabe, eu não presto
e nunca precisei fingir perto de você.
Me viu sujo, me viu bruto, me viu ridículo
e ainda assim ficou.
Não para me passar a mão na cabeça,
mas para me dar um tapa quando eu merecesse.Nas noites que o capitalismo nos mastiga,
nos joga na sarjeta com o troco da humilhação,
nos resta a cerveja morna,
os cigarros divididos
e essa força invisível que nos mantém em pé.O mundo nos devora,
mas a gente se acolhe,
se segura,
se ri,
se abraça,
se cura.E agora penso nos poetas que escreveram
sobre os grandes amores da vida,
os versos de paixão, de corpos entrelaçados,
promessas eternas que o tempo apaga.Eles erraram.
O grande amor não é aquele que nos arrebata,
mas a amizade que nos segura pelo ombro, nos chacoalha
quando a vida nos empurra para o abismo.Vinícius Prado