O bar era um daqueles lugares antigos, cheios de histórias grudadas nas paredes manchadas de nicotina e tempo. Atrás do balcão, uma TV muda transmitia um jornal que ninguém assistia. A mesa, no canto, estava coberta de copos suados de cerveja e pequenos cálices de cachaça. Ali estavam eles, frente a frente, dois velhos marxistas, separados por décadas de escolhas, mas unidos por uma história comum.
Nos anos finais da ditadura militar, os dois se conheceram nos corredores de uma universidade pública, onde participavam ativamente do movimento estudantil. A repressão ainda pairava no ar, mas havia um fôlego novo nas ruas, uma vontade incontrolável de romper com o regime. Juntos, ajudaram a organizar greves, assembleias e manifestações que, pouco a pouco, minavam os alicerces do autoritarismo. Compartilhavam panfletos, fugiam da polícia e passavam noites em claro debatendo teoria revolucionária e estratégias de ação.
Foi nesse ambiente que ingressaram na mesma organização trotskista, acreditando na necessidade de uma revolução socialista para dar um fim não apenas à ditadura, mas ao sistema que a sustentava. Eram jovens, cheios de convicção e dispostos a tudo pela causa. Com o início da abertura política e a transição para a democracia, viram suas primeiras grandes divergências surgirem: como agir naquele novo cenário? Como manter os princípios revolucionários sem perder a conexão com as massas? Perguntas que, décadas depois, ainda ecoavam entre eles.
— Você já se deu conta de que seu partido virou um cartório? — disse Ernesto, tragando o cigarro com um meio sorriso de desprezo. — Falar em revolução e fazer aliança com a direita? Não sobra nada além de cargo comissionado.
Armando, do outro lado da mesa, suspirou. A paciência ainda não havia se esgotado, mas os anos o tornaram mais pragmático.
— Ernesto, o mundo não é um panfleto de 1980. O fascismo está batendo à porta. Não é hora de pureza ideológica. É hora de barrar o inimigo mais perigoso.
— E pra isso você entrega a chave da casa para o inimigo de classe? — Ernesto riu, balançando a cabeça. — Você chama isso de realismo, mas é capitulação. A gente passa a vida combatendo um monstro e, na hora H, você o alimenta pra ele não engolir tudo de uma vez.
Armando girou o copo entre os dedos. Na teoria, o discurso de Ernesto fazia sentido, mas o tempo lhe ensinara que discursos intransigentes não mudam nada. Trabalhava em um gabinete, emendava reuniões, aprovava pequenos avanços na surdina, enquanto os inimigos estavam distraídos. Era isso ou nada.
— Me diz, Ernesto, o que você construiu nesses anos todos? Uma eterna oposição sindical? Não dirige nem a sua categoria. Um partido que não passa de um clube de debates? — Tomou um gole de cachaça e continuou. — Nós falamos para milhões na TV, no plenário, nos jornais. Você fala para vinte companheiros numa plenária onde todo mundo já concorda.
Ernesto deu uma risada seca.
— E você fala para milhões… para quê? Para pedir voto no inimigo? Para chamar banqueiro de “aliado tático”? A diferença é que eu não preciso de deputado para falar o que penso.
Os dois se encararam por um instante, como se tentassem atravessar o tempo um do outro, como se enxergassem aquele jovem que um dia dividiram ruas, panfletagens e noites mal dormidas em reuniões clandestinas. Ali, no fundo de suas retinas, ainda havia algo comum.
A conversa seguiu entre ironias, provocações, risadas nostálgicas e alguns momentos de silêncio pesado. Copos foram esvaziados, garrafas esquentaram. Até que Armando olhou o relógio e percebeu que já passava da meia-noite.
— É tarde, Ernesto. Preciso ir. Amanhã tenho reunião cedo.
— Eu também. Tenho aula às sete. — Ernesto sorriu de canto de boca. — Parece que estamos velhos demais para essa merda, não?
Armando riu, levantando-se.
— Estamos velhos demais para concordar. Mas se der merda de verdade, sei onde te encontrar.
Ernesto assentiu, bebendo o último gole de cachaça.
— Nos vemos nas trincheiras, camarada.
Aperto de mãos firme, olhares cúmplices. Eram dois homens que seguiram caminhos distintos, mas que, no fim, sabiam que a história ainda não havia dado sua última palavra.