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De repente Solteiro!

Uma coisa que todo mundo que já teve um relacionamento longo na vida concorda é que voltar para o mundo dos solteiros é sempre um desafio. Você fica anos organizando a vida a dois, frequentando lugares que majoritariamente frequentado por casais, e precisa reaprender sobre a solteirice, em um mundo que já não é mesmo da sua última vez solteiro. Quem são os solteiros? Como vivem? Do que se alimentam?

Há uns anos, tinha acabado de sair de um relacionamento de quase onze anos e estava enfrentando esse desafio. Fiz o que toda pessoa sensata faz frente a desafios os quais não possui conhecimento suficiente para enfrentar: procurei consultoria de especialistas, no caso amigos e amigas solteiras, e uma orientação recorrente era que você tem que ir para os rolês (na época achava estranho usar essa palavra).

Até que um dia, um dos meus principais consultores praticamente me forçou a sair: “bora lá Vinícius, hoje você vai pra balada, sem desculpas”. Acatei a orientação do especialista mesmo sem saber direito para onde iríamos.

Ao chegarmos na tal balada a princípio me senti confortável, DJs com repertório de muita música brasileira, ambiente legal, encontramos alguns amigos e amigas desse meu consultor, alguns eu conhecia de vista, mas de repente me veio à cabeça uma dúvida “Ok, estou no ‘rolê’ e agora como se diverte?”. Eu não tinha referência nenhuma ali, das bebidas aos entorpecentes, tudo tinha novos nomes, eu nunca sabia direito do que as pessoas estavam falando.

Mas também não tem muito segredo para começar a se enturmar. Uma bebida aqui, uma dançada sem jeito ali, ia tentando me envolver, mas sentia que não estava sabendo me comportar naquele ambiente. Acho que qualquer um que ali estivesse e me olhasse ia pensar na hora “esse cara tá perdido por aqui”.

Enfim, noite rolando, acabei me distanciando do meu consultor e das poucas pessoas conhecidas que tinha por ali. Aparentemente, eles estavam se divertindo e eu não tinha descoberto ainda como fazer o mesmo, até que vi algo muito familiar “um balcão”. Porra, balcão lembra boteco, e disso eu entendo bem.

Balcão, aquele lugar mágico que você encosta o cotovelo, pede uma bebida e conversa com desconhecidos sobre a vida, o universo e tudo mais. Encostei lá, já pedi mais uma cerveja, mesmo não sendo o balcão do boteco já tava valendo, já me sentia mais ambientando. Eis que chega um sujeito desconhecido puxando papo, um rapaz negro, alto, com uns dreads até a cintura, tipo bonitão mesmo.

Sujeito simpático, começamos trocar ideia, o papo começou com ele perguntando se eu estava sozinho lá, e aí comecei a contar minha saga e como tinha chegado até aquele balcão. Fui estendendo o papo, às vezes falo demais, até que em certo momento o rapaz me pergunta “você não está entendendo nada? Ou está tirando com minha cara?” Eu expliquei que não devia estar entendendo nada, a última coisa que queria era ofender um sujeito tão simpático que me fazia companhia e ouvia meus lamentos, eis que ele me explicou “não quero ficar conversando, quero dar uns beijos”. Eu meio sem graça expliquei que apesar de ele ser simpático, bonito eu tinha esse problema de ser hétero.

Rolê seguiu e eu acabei me perdendo do meu consultor, voltei para casa sozinho e, no dia seguinte, recebo a mensagem do meu amigo e consultor perguntando “Não te achei ontem no fim da balada, foi embora antes? Ficou com alguém?” Eu respondi “Olha não fiquei ninguém, mas voltei com a autoestima em alta, não tem ideia do cara que queria me pegar!”. Às vezes a gente só precisa se sentir desejado para dar uma melhorada no astral.