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O Boêmio e o Monstro

Era uma vez, nas ruas sinuosas e nos becos boêmios do Curitiba, um homem de nome Brás. Não o defunto autor, mas um outro Brás, vivo e pulsante, que, como o primeiro, possuía suas idiossincrasias e um certo ar de desfaçatez. Era um boêmio de carteirinha, um dândi das noites curitibanas, cujo sorriso fácil e a palavra espirituosa eram tão conhecidos quanto as calçadas do Largo da Ordem. Dos garçons que lhe serviam a cachaça mais pura aos músicos que embalavam as noites com choros e sambas, todos o saudavam com um misto de carinho e admiração. Brás era o centro das atenções, o amigo de todos, o confidente de muitos, e sua presença era como um bálsamo para as almas cansadas da rotina e da mesmice. Sua popularidade não era fruto de riqueza ou poder, mas de uma simpatia inata, de um dom para a convivência que poucos possuíam. Era, em suma, um homem que sabia viver, e que fazia da vida uma arte, um espetáculo a ser apreciado por todos que o cercavam.

Contudo, por trás daquela fachada de jovialidade e camaradagem, escondia-se um segredo, uma sombra que, de tempos em tempos, emergia das profundezas de sua alma. Brás, o boêmio amado, possuía um monstro interior. Não um monstro de garras e presas, mas um de egoísmo puro, de ausência de escrúpulos, de uma empatia que se esvaía como fumaça ao vento. Era um ser abjeto, que via o mundo como um palco para seus próprios desejos, sem se importar com as dores ou alegrias alheias. Quando esse monstro se manifestava, Brás se tornava irreconhecível. A voz suave dava lugar a um tom áspero, o sorriso se transformava em um esgar de desprezo, e os olhos, antes brilhantes de vida, adquiriam um brilho frio e calculista. Era como se uma outra entidade tomasse posse de seu corpo, de sua mente, e o transformasse em um ser repulsivo, incapaz de qualquer sentimento nobre.

Desde que tomou consciência dessa dualidade, desse seu lado sombrio, Brás buscou uma solução. E a solução que encontrou, por mais peculiar que parecesse, era a reclusão. Nos dias em que sentia a sombra do monstro se aproximar, em que a irritação e a indiferença começavam a borbulhar em seu peito, ele se trancava em casa. Reforçava as trancas das portas, travava as janelas, e toda a casa se transformava em uma fortaleza impenetrável. Era um ritual meticuloso, quase obsessivo, que visava impedir a saída daquela criatura que habitava seu ser. Brás sabia que, uma vez solto, o monstro causaria estragos, feriria pessoas, e mancharia a imagem do boêmio que tanto se esforçava para ser. E assim, em seu refúgio, ele esperava a tempestade passar, a fera se acalmar, e a luz de sua verdadeira personalidade retornar. Era um fardo pesado, uma luta constante contra si mesmo, mas que ele travava com a disciplina de um monge e a resignação de um mártir.

Porém, a vida, com sua ironia peculiar, nem sempre se dobra aos nossos desígnios. Houve um dia, um dia fatídico, em que a rotina, com suas pequenas e implacáveis exigências, impediu Brás de cumprir seu ritual de reclusão. Um compromisso inadiável, uma distração trivial, ou talvez, quem sabe, um lapso na memória, fez com que as trancas não fossem reforçadas como de costume, as janelas não fossem travadas com o rigor de sempre. A casa, antes uma fortaleza, tornou-se, naquele dia, uma morada comum, vulnerável aos caprichos do destino. E assim, sem o anteparo das precauções, o monstro, astuto e impiedoso, percebeu a brecha. Não houve aviso, não houve o borbulhar habitual da irritação. A transformação foi súbita, quase imperceptível para o próprio Brás, que, em um instante, deixou de ser o boêmio afável para se tornar a criatura sem escrúpulos que tanto temia. A fera estava solta, e as ruas do centro da cidade, que antes o acolhiam com carinho, seriam agora o palco de sua manifestação mais sombria.

E o monstro, com a desenvoltura de quem conhece o terreno, dirigiu-se aos mesmos bares, aos mesmos recantos onde o boêmio Brás era rei. Os garçons, acostumados ao sorriso largo e à piada pronta, saudaram-no com a familiaridade de sempre. Os músicos, embalados pelo ritmo da noite, acenaram, sem perceber a mudança sutil, mas profunda, que se operara em seu semblante. Brás, ou melhor, o monstro que o habitava, passeava entre as mesas, os olhos fixos, sem o brilho de outrora, a boca cerrada, sem a leveza do gracejo. Algumas pessoas, mais sensíveis ou talvez mais atentas, sentiram um arrepio, um desconforto inexplicável. Afastaram-se, discretamente, como quem evita uma corrente de ar gelado. Outras, porém, mantiveram o mesmo contato, a mesma proximidade, talvez por ingenuidade, talvez por uma lealdade cega, ou quem sabe, por uma compreensão tácita da complexidade humana. O monstro, em sua indiferença, não se importava com a reação. Ele apenas existia, consumia, e seguia seu caminho, deixando um rastro de estranhamento e, por vezes, de mágoa.

Foi então, em meio àquele turbilhão de reações e não-reações, que uma epifania se abateu sobre Brás . Não o monstro, mas o Brás boêmio, que, de alguma forma, assistia a tudo como um espectador de sua própria tragédia. Ele viu a si mesmo, o monstro, em sua crueza, em sua falta de pudor, e viu também a reação dos outros. Aqueles que se afastaram, sim, mas também aqueles que permaneceram, que o saudaram, que lhe ofereceram um sorriso, mesmo diante daquela versão distorcida de si. E foi aí que a verdade, simples e avassaladora, se revelou: não podemos controlar nossos monstros interiores. Eles são parte de nós, uma faceta indissociável de nossa humanidade. A luta para trancá-los, para escondê-los, era, em si, uma negação de sua própria essência. E as pessoas que realmente gostam da gente, aquelas que nos aceitam em nossa totalidade, sabem que terão de conviver com nosso monstro interior também. O afeto verdadeiro não se baseia na perfeição, mas na aceitação das imperfeições, das sombras que nos habitam. Brás , o boêmio, compreendeu que a beleza da vida reside justamente nessa dualidade, nessa imperfeição que nos torna únicos e, paradoxalmente, mais humanos. E com essa nova compreensão, ele, o Brás de carne e osso, sentiu um alívio que há muito não experimentava. O monstro não desaparecera, mas a luta contra ele, sim. E na aceitação, encontrou a verdadeira liberdade.