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Dália Negra

A cidade fedia a mofo e solidão. Becos úmidos, vielas escuras. O cheiro de lixo e de medo. Era o palco dele. O artista do macabro.

Primeira Vítima.

Uma qualquer. Caída de bruços numa poça de água suja. A faca, precisa, certeira. No peito, sobre o tecido barato do vestido, uma flor. Uma Dália Negra, aveludada, quase obscena na sua perfeição.

O investigador chegou. Agenor, o nome dele. Cabelo ralo, olhos cansados de ver o pior do homem. Ajoelhou-se. A perícia era rotina. Medir, fotografar, coletar. Mas a flor… A flor era um grito no silêncio da morte. Um toque de beleza no horror. Agenor tocou a pétala com a ponta da luva. Fria. Como o corpo. Naquela noite, não dormiu. A imagem da dália sobre a carne fria queimava em sua mente. Nascia a obsessão. O Assassino da Dália Negra. O nome ecoava nos corredores da delegacia. Para Agenor, ecoava dentro do crânio.

Segunda Vítima.

Outro beco, duas semanas depois. Um homem, desta vez. Um bêbado sem nome. A mesma facada, a mesma assinatura floral no peito. Agenor correu para a cena. A chuva fina molhava o asfalto e a flor. Procurou por pistas. Um fio de cabelo escuro, longo. Inconclusivo. Poderia ser de qualquer um. Mas ele guardou. Era um pedaço dele. O assassino era meticuloso, quase invisível. Um fantasma que sangrava os outros e deixava flores.

Terceira Vítima.

Uma jovem. Voltava da faculdade. A mochila ainda nas costas. A Dália Negra parecia zombar da vida interrompida. Agenor sentia o cheiro do perfume dela misturado ao odor metálico do sangue. Encontrou uma pegada, tamanho 42, de uma bota militar comum. Milhares de pares iguais na cidade. Outro beco sem saída. A cada corpo, a obsessão de Agenor se aprofundava. Ele conversava com as vítimas em sua mente. “O que vocês viram? Como ele era?” O silêncio era a única resposta.

Quarta Vítima.

Um morador de rua. Encolhido como se dormisse. Apenas a flor no peito denunciava a violência. Desta vez, nada. Nenhuma fibra, nenhum fio, nenhuma pegada. O assassino se tornara mais limpo, mais etéreo. Perfeito. Agenor gritou dentro do carro, socando o volante. A frustração era um bicho roendo suas entranhas.

E então, o silêncio.

Os dias viraram semanas, as semanas, meses. Nenhuma Dália Negra brotou no peito de ninguém. O assassino sumiu. A obsessão de Agenor virou angústia. Um vício sem a droga. Ele não conseguia mais trabalhar em outros casos. Tudo era trivial. Apenas a Dália Negra importava. Mórbidamente torcia para um novo assassinato.

As madrugadas se tornaram seu território. Saía do apartamento e vagava. Pelos mesmos becos, pelas mesmas vielas. Oferecia-se à escuridão. “Venha”, sussurrava para as sombras. “Estou aqui. Me encontre.” Esperava a faca, ansiava pela flor. Queria ver o rosto do seu demônio, do seu criador. Mas o fantasma não apareceu.

Foi afastado. “Estresse pós-traumático”, disse o psiquiatra. “Fadiga.” Deram-lhe pílulas coloridas que turvavam o mundo. Sua rotina agora era a varanda. A cadeira de vime, o olhar perdido na rua, o copo de água para engolir os remédios. A mente, um pântano de memórias e flores escuras.

Numa tarde cinzenta, o torpor foi quebrado por um impulso. Levantou-se, arrastando os pés. Entrou na penumbra da casa, a sala silenciosa e empoeirada. Sobre a madeira escura de sua escrivaninha, onde antes espalhava fotos de cenas de crime, repousava, solitária e perfeita, uma Dália Negra.