Fernando tinha quarenta anos e uma angústia discreta. Daquelas que não fazem barulho, não gritam no meio da rua, mas que ocupam cada canto do peito como um fungo que cresce na parede úmida do banheiro. Trabalhava como contador em um escritório de repartição qualquer — desses onde as almas entram e nunca mais saem. Vivia sozinho. Não por escolha, mas por inércia.
Numa terça-feira banal, depois de semanas com dores persistentes no abdômen e uma perda de apetite que ele atribuía à gastrite nervosa, recebeu o diagnóstico. O médico — um homem jovem, bonito, com um jaleco que parecia saído de uma propaganda de pasta de dente — olhou nos seus olhos e disse com voz neutra:
— É um câncer avançado. Terminal. Com tratamento intensivo, talvez viva dois anos. Sem ele, seis meses. No máximo.
Fernando ficou em silêncio. Não chorou, não gritou, não perguntou “por quê eu?”. Apenas olhou pela janela da sala e pensou: Seis meses. É o que me resta.
Saiu do consultório com uma leveza suicida. Pela primeira vez na vida, tinha um prazo. E isso era, de alguma forma, libertador. Jogou os exames no lixo da esquina e, naquela noite, bebeu sozinho duas garrafas de vinho barato no seu apartamento. Olhou-se no espelho e disse a si mesmo, com voz firme e embriagada:
— Agora, eu vou viver.
Fez uma lista. Uma lista física, no papel, com letra tremida e cheia de arrependimentos.
Na primeira linha: Viajar pela América Latina.
E viajou. Pegou um voo pra Bogotá, subiu os Andes, dançou bêbado em Cuzco, vomitou chicha em um mercado de La Paz, transou com uma colombiana que vendia bijuterias em Cartagena. Foi preso por desacato em Buenos Aires, pagou a fiança com o cartão de crédito e riu da própria cara na saída da delegacia.
Na segunda linha da lista: Ver ao vivo todos os meus artistas favoritos.
Foi aos shows de Caetano, Chico, Mercedes Sosa (num tributo póstumo em Buenos Aires que o fez chorar feito menino). Em um festival no Chile, gritou tão alto durante uma apresentação dos Los Fabulosos Cadillacs que perdeu a voz por três dias.
Na terceira linha: Dizer às pessoas o quanto gosto delas.
Visitou o pai, que morava em um asilo, e o abraçou por cinco minutos inteiros, tempo inédito para aquela relação. Ligou para a irmã com quem não falava há dez anos e disse:
— Eu te amo. Mesmo você sendo uma vaca às vezes. Ela chorou.
Foi à casa da ex-mulher e pediu desculpas por tudo, até pelo que ela não lembrava mais. Disse a um velho amigo de infância:
— Você salvou minha vida quando a gente tinha dez anos e eu quase me afoguei no lago. Eu nunca te agradeci.
E o mais impressionante: pediu demissão. Deixou o terno no cabide da repartição e disse ao chefe:
— Pode ficar com tudo. Eu fico com a minha morte.
Durante seis meses, viveu como se cada manhã fosse a última. Sentia o gosto do café, da carne, da saliva, como um condenado que saboreia o mundo antes da cadeira elétrica. Não economizou um centavo. Gastou tudo. Doou o que restou. Ajudou um menino em Lima a pagar os estudos. Deu o carro para o porteiro. Queimou suas roupas num terreiro em Salvador.
E então, no dia que marcava seis meses exatos desde o diagnóstico, sentou-se à beira do mar, em Paraty, e esperou a morte. Esperou com dignidade. Estava pronto.
O celular tocou.
Era o médico.
— Fernando… houve um erro. Os exames estavam trocados. Sua doença é tratável. Com cirurgia e medicação, sua vida volta ao normal. Você está salvo.
Silêncio.
— Fernando? Está me ouvindo?
Ele desligou. Ficou olhando pro horizonte como se tivesse visto o diabo. Uma náusea o tomou. A vida, que antes o empurrava pro abismo, agora o puxava de volta — para o mesmo nada de onde ele havia escapado.
Voltou pra casa. O apartamento agora vazio, sem móveis, sem fotos, sem passado. Sentou no chão da sala e tentou lembrar de algum sonho não realizado. Não havia. Nenhum.
A única coisa que lhe restava era uma vida inteira, pela frente, sem urgência, sem desejos, sem nada.
Meses depois, foi encontrado no banco de uma praça, dormindo com os olhos abertos, um jornal velho no colo e um bilhete no bolso:
“A morte me deu um sentido. A vida me tirou.”
E assinava apenas:
Fernando.