um dia, aos vinte e poucos,
achei que era gênio.
acordei com a cabeça latejando e pensei:
é isso, estou destinado a grandes merdas.
sentei, escrevi três páginas ruins,
fumei dois cigarros,
e me achei a reencarnação torta de rimbaud
com um pouco mais de cerveja e menos glória.os anos passaram.
os poemas não ficaram melhores.
a ressaca, ficou mais longa.
e os pensamentos geniais… morreram, sumiram, me fizeram de otário.tentei seguir.
mastigando a poeira dos dias,
colando frases de efeito em cadernos sebentos,
esperando alguém descobrir o diamante
que nunca esteve ali.hoje vejo:
tenho os vícios de um grande escritor,
o vazio de um filósofo,
a arrogância de um visionário —
mas sem a visão.sou só mais um.
um bêbado melancólico
com tendências à megalomania
e a conta sempre no vermelho.não sou gênio.
sou o eco vazio
daquilo que um dia achei que seria.
e mesmo assim,
continuo escrevendo.
por teimosia,
ou por medo
de aceitar o silêncio.Vinícius Prado