Eu nunca fui um crente, no sentido estrito da palavra, mas confesso que flertei perigosamente com a Renovação Carismática Católica. Para quem não sabe, é o fast-food da fé, onde o catolicismo tradicional, com sua pompa e incenso, é trocado por um fervor evangélico light, com direito a “falar em línguas” e orações que parecem mais um leilão de gado. É o lugar onde o conservadorismo é tão extremo que com certeza o papa Francisco seria visto como degenerado. E, claro, tudo que não é deles é, invariavelmente, “do inimigo”. Uma visão de mundo bastante acolhedora, como se pode imaginar.
Aos 15 anos, eu era o produto perfeito dessa máquina de culpa e tradição. Batizado, crismado, primeira comunhão feita cheguei até a crisma, eu me sentia na obrigação de sentir. Sim, sentir. Porque a fé, para essa turma, não é uma questão de crença silenciosa, mas de performance emocional. Enquanto a galera ao redor caía no chão, tremia, chorava e jurava ouvir a voz de Deus (que, imagino, devia ter um timbre bem próximo da voz do Cid Moreira), eu estava lá, um bloco de gelo existencial.
Eu me dedicava, juro. Queria o upgrade espiritual, o download dos dons. Mas nada. Zero. Nem um arrepiozinho sequer. Comecei a achar que havia um defeito de fábrica na minha alma, um bug no meu firmware religioso.
O ápice dessa tragicomédia foi um tal “Carnaval Cristão”. A contradição já começa no nome, não é? É como se o AA organizasse um happy hour. Mas lá fomos nós, em um ginásio abafado, com cheiro de suor e santidade forçada. Eu estava, é claro, com a namoradinha da época. Porque, sejamos francos, o que mais leva um adolescente à igreja além da pressão familiar e a chance de flertar com alguém que também está sob pressão familiar?
Eu estava lá, empolgadíssimo, fazendo as coreografias que fariam o Padre Marcelo Rossi se orgulhar. Um espetáculo de descoordenação motora e devoção juvenil. Me envergonho só de lembrar.
De repente, a música parou. O silêncio caiu como um balde de água fria na nossa rave gospel. Um pregador, com a voz que parecia ter sido treinada em um curso de oratória para vendedores de carros usados, assumiu o microfone.
“Quem aqui nunca teve uma experiência real com Deus? Quem nunca sentiu o poder de Deus em si?”
Eu e mais uns seis patetas, com a honestidade burra da juventude, levantamos a mão. Fomos convocados para a frente do ginásio, diante de umas duas mil pessoas. O palco da nossa humilhação pública. Mandaram a gente ajoelhar.
E então veio o clímax. Uma pessoa, com a mão na cabeça de cada um, começou a soltar o famoso “shalom shalom sharamana”. Era o som da fé em modo turbo, o dialeto celestial que, para mim, soava exatamente como um engasgo, confesso que sentia um pouco de vergonha alheia ao ver um adulto fazendo aqueles sons, mas estava firme, concentrado, esperando o tal poder.
Cinco minutos de “sharamana” e eu, nada. Abri uma fresta no olho. O rapaz ao meu lado já tinha desabado, como um boneco de posto. Fechei o olho, me concentrei, fiz força para sentir qualquer coisa. Uma dor de cabeça, um formigamento, a vontade de comprar um CD de louvor. Nada.
Abri o olho de novo. Agora, todos que se aventuraram como eu estavam no chão. Só eu e a moça que orava na minha cabeça continuávamos. Ela, percebendo a minha teimosia espiritual, e a pressão do ginásio lotado, começou a forçar a minha cabeça para baixo, numa tentativa sutil de me derrubar pela força da gravidade.
Foi nesse momento que a ficha caiu. Não ia rolar. Deus, se estivesse ali, estava me dando um bolo. E eu, um adolescente desesperado para não ser o único loser espiritual da festa, fiz o que qualquer pessoa minimamente social faria: dobrei os joelhos e fingi que senti.
O ginásio explodiu em aplausos. A performance tinha sido um sucesso.
Naquele dia, enquanto eu recebia os parabéns por ter finalmente “encontrado Jesus”, eu estava, na verdade, encontrando o ateísmo. Aquele momento de farsa, de teatro religioso, foi a minha verdadeira experiência de fé. A fé na minha própria capacidade de fingir para me encaixar. E foi assim que, de joelhos no chão, eu comecei a minha jornada para fora da igreja. Um aplauso de duas mil pessoas foi o meu batismo na descrença. E, convenhamos, foi muito mais emocionante do que qualquer “shalom sharamana”.