Menu fechado

Se Beber Não Pague!

Ah, a vida adulta! Essa intrincada teia de boletos, expectativas sociais e a eterna dança entre o desejo e a realidade financeira. Sou, confesso, um espécime particularmente suscetível à amnésia orçamentária induzida por álcool. Não que eu seja um gastador compulsivo, mas a combinação de um bom papo, uma dose de otimismo etílico e a vaga lembrança de um saldo bancário que um dia foi robusto, pode me levar a decisões… digamos, financeiramente criativas.

Certa feita, em tempos de solteirice gloriosa (ou seria pindaíba crônica?), engatei um flerte com uma moça. Já havíamos compartilhado algumas refeições, risadas e a mútua constatação de que a vida, afinal, não era um comercial de margarina. A intimidade crescia, o compromisso, felizmente, não. Era aquele estágio delicioso do “estamos nos conhecendo”, onde as falhas ainda são charmes e o futuro é um rascunho em guardanapo de bar.

Num sábado qualquer, o telefone vibra. Era ela, anunciando sua presença na minha

região e, com a sutileza de um convite irrecusável, sugerindo um almoço naquele restaurante oriental que ela tanto elogiava. Meu cérebro, que já havia feito as contas do mês e constatado a iminência da pindaíba, fez um scan rápido no saldo bancário e uma pesquisa ainda mais rápida no menu do tal restaurante. “Vai dar na tampa”, calculei, com a precisão de um astrônomo amador prevendo um eclipse lunar. E lá fui eu, com a coragem dos que não têm nada a perder (além da dignidade, claro).

Chegamos ao local, um desses templos gastronômicos de praça de alimentação, onde a independência financeira é testada no balcão. Ela, com a desenvoltura de quem tem a vida em dia, fez seu pedido e pagou. Eu, na minha vez, assisti ao cartão de crédito fazer a mais humilhante das recusas. Aquele momento em que a máquina, com sua luzinha vermelha, anuncia ao mundo que você é um mero espectador da fartura alheia. Algum débito inesperado, uma miragem bancária, o universo conspirando contra meu almoço oriental. O constrangimento? Ah, ele era palpável, denso, quase mastigável. Mas eis que a moça, com um sorriso que mesclava compreensão e um leve toque de escárnio, solta: “Deixa que eu pago. Você é só mais um golpista do Tinder, né?”. A piada, embora certeira, serviu como um bálsamo. O almoço seguiu, e até um café veio depois, tudo, obviamente, por conta dela. A intimidade pré-existente nos salvou do naufrágio social, transformando o vexame em anedota interna.

Duas semanas depois, a maré virou (ou meu salário caiu, o que dá no mesmo). Convidei-a para um almoço de feijoada, com samba ao vivo, porque a vida é feita de contrastes e de dívidas a serem pagas. Cerveja, caipirinha, e, para coroar a experiência, um drink exótico de mate com jambu. A essa altura, a percepção da realidade já estava em modo “paisagem abstrata”. O samba rolava, as bebidas desciam, e o orgulho masculino, ferido na saída anterior, inchava como um balão prestes a estourar.

Então, ela surge, a vilã de toda história de bar: a conta. Eu, já no auge da minha generosidade etílica e com o ego em modo “revanche”, soltei a frase fatídica: “Aquele dia você pagou, hoje eu pago”. Ela, com a lucidez que só os abstêmios ou os menos embriagados possuem, tentou argumentar: “Não faz sentido, a conta de hoje é seis vezes maior, não precisa…”. Mas a lógica, naquele momento, era uma estrangeira em meu cérebro. “Hoje é por minha conta!”, insisti, com a convicção de um estadista.

Confesso que, ao ver o ticket nas mãos do garçom, uns 20% do porre se dissiparam em um choque térmico financeiro. A conta era, de fato, um monumento à minha megalomania alcoólica. Ela, a moça, com a paciência de uma santa, ainda me deu uma última chance: “Não quer dividir mesmo?”. Mas o orgulho, esse bicho traiçoeiro, já havia selado meu destino. “Relaxa”, respondi, com a voz embargada pela certeza do abismo bancário, e meti o cartão.

Saímos juntos por mais alguns meses, mas a relação, como tantas outras na era do Tinder, murchou sem alarde, como uma planta esquecida no canto da sala. A lição, porém, permanece gravada a fogo na minha alma (e no extrato bancário): nunca, jamais, em hipótese alguma, misture caipirinha, mate com jambu e orgulho machista com a decisão de pagar a conta. A não ser, claro, que você aprecie a arte de transformar um encontro romântico em uma crônica hilária de autodestruição financeira. E, bem, eu aprecio. Mas meu bolso, nem tanto.