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Não me deseje feliz dia dos professores

Não me deseje feliz Dia dos Professores. Por favor, não. Hoje, especialmente hoje, essa frase soa como deboche. Soa como uma dessas campanhas institucionais cheias de sorrisos de banco de imagem e frases de efeito que nunca chegam à sala de aula, nem ao coração exausto de quem passou a vida tentando educar.

Foram vinte anos. Duas décadas inteiras dedicadas à educação pública — entre papéis administrativos, reuniões pedagógicas e o quadro de giz. Vinte anos tentando fazer da escola um espaço de esperança, mesmo quando tudo ao redor insistia em dizer o contrário. E, ironicamente, é justamente hoje, que passo meu primeiro Dia dos Professores, como… “não professor”.

Não me deseje feliz Dia dos Professores. Porque há uma certa crueldade em desejar felicidade a quem acaba de se despedir de algo que foi, por tanto tempo, o próprio sentido da vida.

Lembro do começo. Eu, ainda desconfiado da docência, fui fazer estágio em sala de aula achando que seria apenas mais uma experiência. Mas não. Bastaram alguns dias para entender que aquele era o meu lugar. As trocas com os estudantes, os olhares curiosos, as perguntas inesperadas, a sensação de que algo importante estava acontecendo ali. Durante muitos anos, esse encantamento me sustentou. Eu acreditava, genuinamente, que estava ajudando a formar pessoas — e, por meio delas, transformando o mundo.

Mas o tempo é um mestre impiedoso. Nos últimos anos, a precarização foi se infiltrando pelas frestas da escola como mofo em parede antiga. Vieram as plataformas digitais, as metas, os relatórios, os índices. Vieram as inteligências artificiais prometendo “otimizar o ensino” e, no processo, desumanizaram o professor. A relação entre educador e estudante — antes feita de afeto, escuta e conflito criativo — foi se tornando um código frio, medido em dados e desempenho, educar passou a ser uma atividade técnica.

Não me deseje feliz Dia dos Professores, porque já não há felicidade possível num ambiente onde o que importa é a meta, e não a mente. Onde chefias pressionam, perseguem, e o assédio virou ferramenta de gestão. Onde o professor é avaliado por planilhas e não por processos.

E, enquanto tudo isso acontecia, o currículo ia sendo mutilado. Filosofia, Sociologia, História, Geografia — disciplinas que ensinam a pensar — cedendo lugar a um tal de “Empreendedorismo”. Agora o estudante não pergunta mais por que o mundo é desigual, apenas como “vencer na vida” apesar disso. E quando fracassa, acredita que a culpa é só dele.

Não me deseje feliz Dia dos Professores, se você não percebe que essa escola liberal e tecnocrática está matando lentamente o espírito da educação.

Para alguém que cresceu acreditando, como Paulo Freire, que “a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo”, é devastador perceber que agora a escola mal consegue mudar a si mesma. Os estudantes estão cada vez mais convencidos de que pobreza é falta de esforço, e não de oportunidades. E nós, professores, assistimos impotentes enquanto o sistema transforma a esperança em estatística.

Foi assim comigo. Adoeci aos poucos, perdendo o sentido. Crises de ansiedade, pânico, noites em claro. A escola, que sempre foi abrigo, virou gatilho. Passar pelo portão se tornou impossível. Vieram afastamentos, consultas, remédios… e, por fim, a decisão que mais doeu: abandonar a docência.

Não me deseje feliz Dia dos Professores. Deseje, talvez, que um dia possamos ter motivos reais para celebrar essa data. Que a educação volte a ser pública de verdade, humana de verdade. Que os professores não precisem escolher entre ensinar e sobreviver.

E, por favor, não deseje feliz Dia dos Professores da boca pra fora. Se você se preocupa de fato, lute pela escola pública. Não fortaleça quem a destrói, não repita os discursos de quem nunca pisou numa sala de aula.

Porque, te garanto: a maioria dos professores não está feliz. Mantém-se na profissão por fé, por necessidade, e à base de muito remédio.

Então, mais uma vez — e agora com toda a ironia e toda a tristeza que me restam —

não me deseje feliz Dia dos Professores.