Certa vez alguém que convivia muito comigo me disse “você é cheio de frescuras com café, mas toma café nos botequins mais fuleiros sem reclamar”. Durante muito tempo amarguei essa contradição, porém hoje percebo que não há contradição nenhuma, são coisas diferentes. Realmente gosto de um bom café, gosto de um expresso feito com um café de qualidade, macchiato ou um Com Panna também estão entre meus preferidos, mas o café de botequim, é outra coisa, é como dizem os hipsters, é a experiência que me atrai.
Em primeiro lugar tem o ambiente, enquanto os lugares que oferecem cafés mais elaborados geralmente são “gourmetizados”, mesas e cadeiras rústicas, ou sofás almofadados, música ambiente entre o jazz e a clássica, ambiente climatizado, que criam um clima nada aconchegante para que não cresceu entre os privilegiados. No botequim encontramos aquele tradicional balcão a meia altura, banquetas altas que te deixam na posição perfeita para apoiar o cotovelo no balcão, o som ambiente varia entre notícias e as músicas mais tocadas na radio mais popular da região, intercalando com o barulho do trânsito, pois a única porta é aquela de ferro que fica erguida o dia todo e só fechada no fim do expediente.
E o atendimento? Nada daquele pessoal uniformizado, te tratando como apenas mais um, forçando o sotaque para falar os nomes dos cafés, para deixar claro que sua pronúncia esta errada, nada daqueles cafés que você tem que solicitar ao atendente uma explicação sobre o que virá na sua xícara. No botequim as únicas variações de nome são pingado ou média e o puro, tudo no copo americano, e o atendimento é feito normalmente por um senhor de camisa social com botões entreabertos, que na primeira oportunidade pergunta seu nome, e se você estiver sozinho ainda te faz companhia num papo sobre qualquer coisa.
E os papos?? Aquelas conversas sobre o curso de inglês dos filhos, sobre as novidades no mundo do empreendedorismo, sobre coach ou crossfit que escutamos nas mesas ao lado nessas cafeterias, no botequim são substituídas por papos sobre a tabela do campeonato atualizada, fofocas sobre a vida dos políticos, músicas de quatro décadas atrás, atualizações sobre a previsão do tempo, e o melhor de tudo não existe “mesa ao lado”, estão todos no balcão, todos na mesma conversa, de bolsominions fanáticos a lulistas apaixonados, todo mundo batendo boca sobre tudo, ao mesmo tempo.
Comparando o ambiente, o atendimento e os papos proporcionados pelos frequentadores, o botequim é muito mais atrativo, acolhedor e democrático. Mas como não sou desses que romantizam a pobreza, quem faz isso é playboy que faz turismo no boteco do litrão mas depois vai pra balada mais cara da cidade, sou daqueles que acha que a classe trabalhadora tem mais é que experimentar tudo que há de melhor nesse mundo, por isso eu espero que chegue o dia em que os donos de botequim sirvam os melhores cafés nos seus estabelecimentos, e que as cafeterias “gourmetizadas” continuem exatamente onde estão, para não corrermos o risco daquele público deles migrarem para nossos botequins e estragarem com tudo.