Há um tempo atrás eu morava em um prédio que ficava em uma das avenidas mais movimentadas do centro de Curitiba, trânsito movimentado o dia todo, todo dia, engarrafamento em horários de pico, aquele caos de cidade grande, acidentes aconteciam diariamente, ir no mercado do outro lado da rua era um stress, as vezes ficava mais tempo esperando para conseguir atravessar a rua do que dentro do mercado.
E obviamente, como em toda cidade grande, avenidas que fazem os carros ficarem muito tempo parados se tornam um mercado com grande potencial para vários trabalhadores que precisam recorrer a trabalhos informais, com essa avenida não era diferente. Todos os dias homens, mulheres, jovens, idosos, disputavam as esquinas. Malabares, palhaços, vendedores de bala, doces, pano de prato, água, enfim a disputa era grande o espaço era pouco, as vezes prevalecia a lei do “quem chega primeiro”, em outras a solidariedade de classe levava-os a organizarem um revezamento, cada dia era uma história.
Certo dia enquanto tomava um mate na sacada após chegar do trabalho, comecei observar dois jovens que tentavam ganhar um troco na avenida, um em cada pista, se aventurando entre os carros enquanto o sinal fechava, passando de carro em carro tentando comover os motoristas a atenderem seus apelos.
O rapaz da primeira pista tinha muito mais sucesso, apesar de aparentemente ter menos experiência em atuar nesse mercado, constantemente ele se perdia no tempo do sinal vermelho, mas devido a seu talento no relacionamento com os motoristas, eles sempre esperavam ele voltar para calçada para acelerarem, seu poder convencimento também era muito bom, ele devia ser esforçar muito, pois em todos os sinais fechados vários motoristas contribuíam, notas de 5 e 10 reais eram constantes, e alguns motoristas até ficavam parados após o sinal abrir, só pra conseguir pagar o rapaz. Qualquer coach ou palestrante de empreendedorismo adoraria usar seu exemplo como um “case de sucesso”.
Na outra pista o rapaz não tão tinha tanto sucesso, mesmo parecendo conhecer melhor o local onde atuava, dificilmente ele perdia o tempo do sinal vermelho, sempre voltava para calçada antes do sinal abrir, até porque não devia ser muito competente no relacionamento com os clientes, pois quando ele se atrasava era xingado, uns jogavam o carro em cima dele. O atendimento ao público realmente não devia ser o forte dele, pois a cada sinal fechado só conseguia convencer um ou outro motorista, poucas moedas jogadas na sua mão, em um caso especifico vi o motorista jogar as moedas no chão e ele ter que pegar correndo antes do sinal abrir.
Enfim, claramente o segundo rapaz não se esforçava em ter um bom relacionamento com seu publico, e nem trabalhava seu produto corretamente, faltava-lhe tino empreendedor, afinal a oportunidade era a mesma do rapaz da primeira pista, mesma avenida, mesmo número de carros passando por hora, mesmo tempo, se um tem sucesso e o outro não é mérito individual, acho que o fato de um ser branco, estar com uma camiseta escrita “Calouro UFPR”, Medicina escrito na testa, e estar pedindo dinheiro como trote para financiar a bebedeira da turma, e o outro ser negro, e estar vendendo balas para garantir o seu sustento, e possivelmente o sustento da família, não tem nenhuma interferência no nível de sucesso que cada um deles atingiu. Não é mesmo?