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Meu Conto de Natal

Minhas primeiras lembranças de natal são do meu avô me levando para dar uma volta na frente da casa para me enrolar enquanto os adultos colocavam os presentes na árvores de natal. Provavelmente eu tenha sido uma criança como todas as outras, que se empolgava com a data, que fica ansioso com a noite de natal, sonhava com presentes e tudo mais, porém o fato é que as minhas memórias conscientes são sempre de não me relacionar muito bem com a data. Acho que dois casos são representativos disso.

O primeiro foi ainda na infância, devia ter uns 7 ou 8 anos, talvez meus pais e meu irmão, o principal afetado nessa história, nem lembrem desse fato, mas pra mim ficou bem marcado. A questão é que eu tinha a pouco tempo confirmado minhas suspeitas de que o Papai noel não existia, e achava uma grande traição dos adultos para com todas as crianças contar tamanha mentira, e fazer todo esse teatro todos os anos para manter essa mentira, alguém precisava desmascará-los, alguém precisava levar a verdade a todas as crianças, talvez minha vontade fosse de gritar “crianças do mundo univa-as!”.

Na época morávamos no interior do Paraná e estávamos passando as festas de final de ano em uma cidade da região metropolitana de Curitiba, na casa de um primo da minha mãe, parentes reunidos, casa cheia, várias crianças e eu era o único que sabia “A Verdade”, era minha missão tirar as outras crianças da ignorância, salvá-las dessa grande mentira e traição dos adultos, eu era um profeta e tinha uma palavra a ser levada.

A oportunidade veio em um dia, próximo a véspera do natal, em que a grande maioria dos adultos saíram rumo ao centro de Curitiba para realizarem as compras de natal, a oportunidade era grande, eu tinha uma materialidade para comprovar minha palavra, minha ideia era reunir todas as crianças e fazer a revelação, mas infelizmente, não sei porque, só consegui “reunir” meu irmão, três anos mais novo, tudo bem todo grande profeta começou pregando para poucas pessoas, ele ia ser o primeiro a ser libertado dessa mentira.

Chamei meu irmão num canto e falei “tenho que te contar algo”, ele ficou curioso obviamente e eu mandei sem meias palavras “sabe que Papai Noel não existe né?”, ele incrédulo questionou racionalmente “se Papai Noel não existe, quem trás os presentes no Natal?”. Um sagaz questionamento, me deixaria sem argumentos, mas não naquele dia, naquele dia eu tinha uma materialidade para fazê-lo caminhar no rumo da verdade, e mandei “são os adultos, viu que hoje eles saíram e não pudemos ir junto? Foram comprar presentes, você vai ver eles vão chegar cheio de sacolas que a gente não vai poder ver. E já reparou que nunca estamos presentes quando o Papai Noel passa?? São eles os adultos!!”.

Pronto a verdade estava revelada, minha missão começava a ser cumprida, e em breve eu estaria libertando dezenas, centenas de crianças dessa grande mentira, mas meu irmão ficou meio incrédulo ainda, porém quando os adultos chegaram a palavra se cumpriu, ele correu perguntar o que tinha nas sacolas, minha mãe falou que ele não podia saber e ele saiu chorando, ela sem entender nada foi atrás dele e quando ele contou para ela, adivinha quem levou bronca e ficou de castigo?? Mas fiquei tranquilo, todo grande profeta sofreu punições por levar a verdade as pessoas.

Mas na vida, poucas frases oriundas da internet são tão verdadeiras quanto “parece que o jogo mudou não é mesmo?”. Eu me tornei pai, e como lidar com essa lance de Papai Noel com meu filho? Eu um ex-profeta que lutava para salvar as crianças da traição dos adultos me tornaria um vendilhão da fé? Passaria para o outro lado? Eu e minha ex-companheira depois de ouvir a opinião de muita gente (quando a gente tem filho todo mundo tem um opinião para dar sobre a criação deles) decidimos que era importante deixar ele acreditar, ajudaria a desenvolver a parte lúdica, e afinal século XXI, tanta tecnologia e tanta informação logo ele ia descobrir que era mentira e a verdade seria reestabelecida.

Mas o jovem João era uma criança de fé, os anos começaram a passar, as evidências saltavam aos olhos dele e nada, coleguinhas deles tentavam abrir seus olhos (talvez jovens profetas como eu fui) e ele duvidava. Até que chegou um ponto, ele já devia ter 8 ou 9 anos, que eu e minha ex-companheira conversamos e decidimos que era hora de contar pra ele, tudo bem que hoje pensando bem, talvez escolher contar para ele em dezembro, há poucos dias do natal, não tenha sido uma ideia muito legal.

O fato foi que chamamos ele, e falamos “precisamos falar com você”, ele veio já achando que era bronca, que tinha aprontado algo, e sem meias palavras mandamos “olha João já tá na hora de você saber que Papai Noel não existe” ele fez várias indagações, como meu irmão fez uns 20 anos antes, mas foi mais fácil de convencer porque eram os adultos admitindo a farsa, o João indignou-se, mas não com o fato de não existir o bom velhinho, e sim por ter sido traído pelos adultos que ele mais confiava, “vocês mentiram pra mim!” era o que ele repetia enquanto chorava de raiva.

Após nos dar uma grande bronca, ele foi deitar no sofá, e refletiu em voz alta “bom, pelo menos o Coelhinho da Páscoa existe…….Ei espera aí, vocês também mentiram sobre ele?” e logo em seguida concluiu, “nossa vocês não são nada confiáveis…” e foi nesse momento que percebi que de ex-profeta propagador da verdade me tornei um propagador da mentira, me tornei o que mais combatia…..