Com certeza a chegada da velhice traz inúmeras dificuldades para o dia a dia dos idosos, problemas de saúde, dificuldades para fazer coisas que sempre fizeram, isso sem contar os problemas financeiros que agravam ainda mais os demais. Porém tem uma construção social que lhes favorece, a autoridade aos cabelos brancos, quem nunca respeitou a opinião de alguém, ou concordou com alguém só porque essa pessoa era bem mais velha?? É uma autoridade que acabamos respeitando quase que inconscientemente.
Hoje me defrontei com uma situação que evidenciou isso e me deixou pensando sobre o tema. O meu desafio era comprar uma garrafa térmica nova, para variar um pouco quebrei a minha semana passada, e pra quem toma chimarrão todo dia isso é um grande problema. Tomar chimarrão sem garrafa térmica é uma corrida contra o tempo, o desafio é tomar o máximo possível antes da água esfriar.
Enfim, em busca de uma garrafa térmica nova comecei a peregrinar pelo centro da cidade, primeiro fui a uma boa loja de departamentos, confiante em encontrar alguma promoção e vi que meu orçamento realmente não cabia naquela loja. Comecei a pular para lojas mais populares, até que cheguei em uma famosa loja de utilidades popular, e foi lá, diante de uma variedade de garrafas térmicas é que me vi submetido a esse poder simbólico que a autoridade dos cabelos brancos confere aos velhinhos.
Após olhar as garrafas, analisar, tomei a decisão, vou comprar a mais barata, afinal na atual conjuntura qualquer centavo economizado importante, porém no momento em que ia pegar a garrafa veio uma voz do além: “essa ai baba…”. Levei um susto mais quando olhei para o lado vi que voz não vinha do além, era um velhinho, cabelos brancos, um rosto sisudo, e um ar de quem tinha muita certeza do que estava falando, e quando olhei para ele reafirmou “essa ai é muito ruim, ela baba, boa é essa daqui” e apontou para uma garrafa três vezes mais cara. Eu meio que sem pensar, mesmo sem saber o que é uma garrafa térmica que baba, automaticamente obedeci aquele senhor, troquei a garrafa e fui pra fila do caixa.
A reflexão sobre o ocorrido veio já fila, comecei pensar como aquele velhinho tinha com muito autoridade mudado minha escolha, mesmo eu já tendo pensando muito antes de tomar a decisão, fiquei abismado como essa imagem da autoridade do mais velho esta presente no meu inconsciente. Porém, como cheguei a essa reflexão antes de passar no caixa pensei “que se foda, não vou deixar um velhinho desconhecido pesar minhas ideias” voltei na prateleira troquei a garrafa e economizei uma boa grana. Ainda bem que padrões de comportamento são construções sociais e históricas e tomar consciência dos mesmos nos permite romper com eles.