Talvez seja estranho em tempos de Marta, Formiga, Cristiane, Debinha, etc, você pensar que há 30 anos, falar em Copa do Mundo de Futebol Feminino era algo impensável para a maioria das pessoas, isso porque ela simplesmente não existia, a primeira copa feminina ocorreu só em 1991 na China.
Nesse contexto, além do preconceito com o futebol feminino no mundo todo, temos que lembrar que estamos no Brasil, país onde a prática do esporte entre mulheres era proibida até 1979, e só foi regulamentada em 1983. E em 1991, na primeira copa, eu era um menino de 6 ou 7 anos, no interior do Paraná, aprendendo todo dia na escola que “meninos jogam futebol e meninas jogam volêi”.
Não lembro de ter assistido aos jogos da copa feminina em 1991, bem diferentes das memórias da copa masculina de 1990, em que tenho memórias sobre as carreatas nas vitórias e de todo mundo triste após a derrota para a Argentina. Minha memória sobre a Copa do Mundo de Futebol Faminino de 1991 vem após a copa, possivelmente tenha ocorrido em 1992.
A cidade em questão era Toledo, oeste do Paraná, terra natal de ninguém menos que Margarete Maria Pioresan, ou apenas Meg, a goleira daquela seleção. Que após os jogos realizados na China, ao retornar à cidade, Meg fez uma visita a minha escola, e foi aí que eu descobri que as meninas também iam à Copa do Mundo.
Lembro que a visita da Meg foi um “boom” na cabeça de todas as crianças, aquela mulher gigante entrando pela sala, não sei a altura dela, mas na época parecia enorme, não só por ser adulta diante das crianças, mas também pela simbologia de uma mulher, alta, com a camiseta da seleção brasileira entrando na sala, sendo apresentada como uma das melhores do mundo no esporte que até a aula anterior ouvíamos que era só para os meninos jogarem. E para alguém que sonhava em ser goleiro, como eu, o “boom” foi duplo.
O impacto da presença da Meg entre nós foi além da visita à escola, é aquele negócio de cidade pequena quando tem uma “celebridade”, você começa a ouvir falar dela em todo lugar, rádio, mercado, fármacia, conversas de família, etc. A imagem dela como referência na cultura esportiva local se fixou a tal ponto que, naquela época, eu e outros meninos que gostavam de jogar no gol, tinhamos o costume de gritar o nome de algum goleiro famoso quando fazíamos uma defesa imitando os narradores da época, e por um tempo entre os gritos de “Zééééétti!”, “Ronaaaaaaaaldo!” e “Velooooooso!”, figurou o grito de “Meeeeeeg!”.
Infelizmente a nossa referência na Meg durou tanto quanto a atenção que a sociedade local deu para a goleira da seleção, eu mesmo só fui me recordar dessa história ontem quando uma amiga compartilhou post sobre os 30 anos da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino.Essas minhas memórias em relação a Meg são importantes para algumas reflexões, primeiro é um belo exemplo de como nossas referências culturais e esportivas são construídas historicamente a partir das opções políticas e econômicas da sociedade. E em segundo lugar que não existe outra explicação para o tratamento que é dado ao futebol feminino até os dias de hoje que não seja o machismo estrutural.