Certa vez, em um passado não tão distante, mas já envolto na névoa romântica da memória, uma namorada minha, criatura de hábitos e horários apertados, estava prestes a embarcar em alguma aventura que a tiraria de minha vista por alguns dias. A missão, para mim, era clara e, a princípio, simples: abastecer a despensa portátil dela com as guloseimas que adoçariam a viagem. Um ato de amor, um gesto de carinho, um mero passeio ao supermercado. Ah, a inocência daquele que subestima a complexidade do universo dos doces!
Fui ao mercado com a alma de um curador de delícias, um sommelier de quitutes. Não era apenas comprar; era selecionar, escolher a dedo, com a precisão de um cirurgião e a paixão de um poeta. Peguei tudo o que ela mais gostava, os biscoitos que desmanchavam na boca, os salgadinhos que crocavam na medida certa, as balas que explodiam em sabor. Eu estava no meu elemento, um verdadeiro artífice do carrinho de compras.
Então, cheguei à seção dos chocolates. O paraíso dos pecadores, o purgatório dos indecisos. Eu sabia, com a certeza de quem ama e observa, que o coração dela batia mais forte pelo chocolate 70% cacau. Uma escolha sofisticada, um amargor elegante, um toque de maturidade, bem diferente da minha predileção por guarda-chuvinhas de chocolate hidrogenado. Estava eu, com a mão estendida para o habitual, quando, num relance, meus olhos foram fisgados por uma embalagem ao lado. “100% Cacau”, dizia, em letras garrafais, com uma aura de pureza e intensidade.
E foi aí que a lógica, essa traiçoeira, me pregou uma peça. Se 70% era bom, imagine 100%! A matemática do amor, pensei eu, é exponencial. Se ela gosta do 70%, do 100% ela vai amar! Eu ia arrasar, ia ser o namorado do ano, o gênio incompreendido que elevou o patamar do chocolate a um nível jamais imaginado. A surpresa perfeita, o toque de audácia que faltava na minha performance de comprador de guloseimas. Ela passaria a viagem pensando em como a surpreendi.
Mal sabia eu, pobre mortal, que aquela barra não era chocolate. Não era para ser comida assim, na inocência de um lanche de viagem. Era cacau puro, em sua forma mais bruta e intransigente. Uma matéria-prima, um ingrediente para alquimias culinárias, não um deleite imediato. Era como comprar um tijolo achando que era um bolo de chocolate porque ambos são marrons e sólidos. A ignorância, por vezes, é uma bênção, mas, nesse caso, foi uma armadilha.
Quando entreguei o pacote, com a pompa de quem apresenta um tesouro, e ela desvendou o mistério do “chocolate” 100%, o riso dela ecoou. Um riso que misturava o divertimento com uma pontinha de incredulidade. Deve ter me achado ao mesmo tempo, o sujeito mais burro do mundo e talvez um pouco fofo. Burro pela ingenuidade gastronômica, fofo pela intenção de surpreender. Espero eu!
E assim, entre risos e a constatação de que nem todo cacau é chocolate, aprendi a lição. Aquela velha máxima, sussurrada pelos sábios e confirmada pelos desastrados: às vezes, menos é mais. Especialmente quando o assunto é cacau e a expectativa é de um doce prazer, e não de uma experiência quase científica. A vida, afinal, é feita dessas pequenas crônicas, onde a boa intenção pavimenta o caminho para as mais saborosas gafes.