Eu me lembro, sim, daquelas noites,
quando a tinta escorria como suor frio
sobre o papel amassado,
palavras de amor, de fogo, de um tesão que parecia eterno.
Era fofo, diziam. Ela sorria, os olhos brilhando,
e a paixão, ah, a paixão,
inchava como um rio depois da chuva.
Eu era o poeta, o amante, o louco.
E ela, a musa, a deusa, a razão.
Mas o tempo, esse filho da puta,
tem um jeito cruel de rir da gente.
As palavras, antes mel, agora são fel.
Os versos, que prometiam eternidade,
são apenas trapos, poeira, nada.
Ela não lê mais. Não sente mais.
Talvez nem se lembre.
E cada linha que escrevi,
cada metáfora, cada rima,
agora é um tapa na minha cara,
uma facada no peito,
lembrando-me da minha própria estupidez.
Nunca mais, eu juro, nunca mais.
Não há poesia que segure um amor que se foi.
Só resta o vazio, a garrafa,
e a lição amarga de que alguns sentimentos
deveriam ter ficado trancados,
bem lá no fundo,
onde ninguém pudesse ver,
muito menos eu.
Vinícius Prado
Versos Quebrados