Ah, o início. Aquele tempo em que a gente ainda se acha um farol de sabedoria recém-saído da universidade, pronto para iluminar mentes jovens com o brilho ofuscante do conhecimento acadêmico. Eu, recém-egresso, com o diploma ainda quente e a cabeça fervilhando de teorias e conceitos complexos, fui jogado no epicentro da realidade: uma turma de quinta série, hoje sexto ano – o que, sim, denuncia um pouco a minha idade e a poeira acumulada nas minhas memórias. Crianças de 11, 12 anos, com a capacidade de absorção de um buraco negro para qualquer coisa que não fosse o recreio ou o desenho animado da manhã.
Minha primeira aula expositiva, um monumento à minha própria inexperiência. O tema? “O Conceito de Ciência da História”. Eu, com a eloquência de quem acabara de defender uma tese, despejava sobre aquelas cabecinhas o arcabouço teórico que me parecia tão fundamental. Falava de fontes primárias e secundárias, de historiografia, de anacronismos, enquanto a plateia, em sua sabedoria infantil, me dava um banho de realidade. Olhares perdidos no horizonte da janela, rabiscos frenéticos em cadernos que se tornavam telas de arte abstrata, e alguns, os mais sinceros, me fitavam com aquela expressão inconfundível de “que diabos esse maluco está falando?”.
A ineficácia do meu discurso era tamanha que, confesso, comecei a me perder no próprio labirinto das minhas palavras. Minha boca seguia o roteiro ensaiado, um piloto automático da pedagogia, mas minha mente, ah, essa já estava em outro lugar, questionando-se: “Que diabos eu estou falando?”. Uma crise existencial em tempo real, ali, diante de 30 pares de olhos desinteressados. A inutilidade da minha metodologia, a fragilidade das minhas escolhas didáticas, tudo me atingia como um raio. Eu era um professor inútil, um mero barulho de fundo para os devaneios infantis.
Foi então que, em meio ao deserto de atenção, um oásis. Uma menina. Olhos fixos em mim, uma concentração que beirava a hipnose. Ela me acompanhava, cada movimento, cada gesto, cada palavra, como se eu fosse o oráculo de Delfos e ela, a mais devota das sacerdotisas. Um sopro de vida, uma injeção de ânimo. “É por ela!”, pensei. “Se eu atingir uma mente, um coraçãozinho que seja, todo o esforço vale a pena!”. E ali, naquele instante, decidi que daria aula para aquela menina. Foquei nela, despejei todo o conteúdo, toda a paixão que ainda me restava. Ela, cada vez mais compenetrada, seguia o movimento das minhas mãos como uma flecha teleguiada.
Terminei a exposição, exausto, mas com um brilho de esperança. Ansioso por um debate, por uma fagulha de interesse, mesmo sabendo que talvez não tivesse atingido ninguém além da minha mini discípula. “Alguém tem alguma dúvida ou questão?”, perguntei, com a voz embargada pela expectativa. E eis que ela, a menina que me salvou do abismo da desistência, aquela que me motivou a não parar a aula no meio e aceitar minha derrota, levantou a mão, ansiosa para falar. Meu coração disparou. “É isso!”, pensei. “Meu discurso tocou uma aluna, e isso já vale muito!”.
E então, a pergunta que ecoa até hoje nos corredores da minha memória: “Professor, esses pontinhos vermelhos no seu braço, não é catapora não?”.
Não era atenção. Não era apreço pela história. Não era cativação pelo meu discurso ou metodologia. Era apenas o medo, o puro e simples medo de uma doença infectocontagiosa. A tranquilizei, explicando que eram apenas picadas de pernilongo, e comecei a refazer mentalmente minha aula, antes de seguir para a próxima turma, com a certeza de que a vida de professor é, antes de tudo, uma lição de humildade e uma eterna busca por pontinhos vermelhos que, afinal, não são catapora.