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O Inventário dos Amores!

Quarenta. Um número que, para João, não era apenas uma idade, mas um marco, um portal para uma espécie de balanço existencial não solicitado. Não que ele fosse dado a introspecções profundas, mas a chegada dos quarenta, com seu ar de ultimato silencioso, o forçou a uma retrospectiva. E o que viu, ao olhar para trás, não foi exatamente um álbum de fotos em sépia, mas uma galeria de escombros emocionais, cada qual com a assinatura indelével de um certo… João.

Naquela noite de aniversário, o bolo de padaria, solitário sobre a mesa da cozinha, parecia zombar de sua falta de companhia. Sem a pompa de um confeito caseiro, sem o calor de vozes que cantassem “Parabéns”, apenas o silêncio e o ronronar distante da geladeira. João, com um copo de uísque na mão – um single malt que ele se permitia em ocasiões de auto-piedade –, sentiu o peso não dos anos em si, mas das lembranças que, como fantasmas insistentes, começaram a desfilar. Quarenta anos e uma galeria de amores desfeitos, cada qual com sua peculiaridade, com suas nuances, mas todos, sem exceção, com um denominador comum, um fio condutor que ligava cada desastre: ele.

Ele não era um homem mau, João. Apenas… João. E isso, descobriu ele, com uma epifania tardia e dolorosa, era o cerne do problema. Ser “apenas João” significava ser uma constelação de inseguranças disfarçadas de certezas, de medos travestidos de controle, de uma incapacidade crônica de se ver e, consequentemente, de ver o outro. E essa constatação, ele percebeu, não era fruto de um processo evolutivo. Longe disso. Era apenas a acumulação de evidências.

A Doce Ana: O Ciúme e a Gaiola Aberta

A primeira da fila, a doce Ana. Ah, Ana. Com seus olhos grandes e a ingenuidade dos vinte e poucos anos, ela o amava com uma pureza que, hoje, João reconhecia como quase sacrificial. Ele, com a arrogância dos seus próprios vinte e poucos, a sufocou. Não com abraços apertados, mas com um ciúme infundado, com uma necessidade patológica de controle que, na época, ele justificava como “cuidado” ou “zelo”. Cada sorriso dela para um amigo, cada atraso de cinco minutos, era um gatilho para um interrogatório velado, para uma nuvem de desconfiança que pairava sobre o relacionamento. Ele não percebia que, ao tentar protegê-la do mundo, estava, na verdade, aprisionando-a em sua própria insegurança. Ela se foi, como um pássaro que, finalmente, encontra a coragem de escapar da gaiola aberta, deixando para trás um bilhete curto, mas lapidar: “Preciso de ar”. João, na época, em sua juventude cega, achou que ela era fraca, que não soubera lidar com a intensidade de seu amor. Hoje, com o uísque aquecendo a garganta e a memória, percebeu que ele era o furacão, e ela, a folha que tentava resistir.

A Intensa Bia: O Burocrata do Afeto e o Vento

Depois veio a intensa Bia. Ah, Bia! Uma força da natureza, um turbilhão de vida, uma mulher que vivia cada dia como se fosse o último, sem amarras, sem roteiros pré-definidos. Ela o tirava de sua zona de conforto, o desafiava, o fazia sentir-se vivo de uma forma que ele não conhecia. Mas João, com sua rotina metódica, com seu medo atávico do imprevisível, tentou domá-la. Queria encaixá-la em seus horários, em seus planos de longo prazo, em sua vida previsível e sem sobressaltos. Ele via a espontaneidade dela como irresponsabilidade, a paixão como descontrole. Tentou podar suas asas, aparar suas arestas, transformá-la em algo que ela não era. Ela resistiu, claro, com a ferocidade de quem defende sua própria essência. E ele, em sua teimosia míope, não percebeu que estava tentando prender o vento em uma garrafa. O fim foi explosivo, com pratos quebrados – uma metáfora perfeita para o que restou do relacionamento – e palavras que cortavam mais do que qualquer caco de louça. Ele a acusou de ser irresponsável, de não ter os pés no chão. Ela o chamou de burocrata do afeto, de coveiro de paixões. Ambos tinham razão, em certa medida, mas ele, mais uma vez, havia sido o catalisador da implosão, o engenheiro da catástrofe.

A Sofisticada Camila: A Omissão e o Vazio

E a sofisticada Camila? Aquela que o introduziu a vinhos que ele não sabia pronunciar, a concertos de música clássica que ele fingia apreciar e a livros que ele fingia ter lido. Com Camila, o erro de João não foi a ação, mas a omissão. Ele se escondia atrás de um silêncio complacente, de uma passividade que ele confundia com maturidade. Evitava confrontos, fugia das conversas difíceis, deixando que as pequenas fissuras do relacionamento se transformassem, silenciosamente, em abismos intransponíveis. Ela precisava de um parceiro, de alguém que a desafiasse intelectualmente, que estivesse presente não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ele ofereceu um espectro, uma sombra, um eco distante de um companheiro. Ela, com a elegância que lhe era peculiar, apenas se afastou, sem drama, sem alarde, como quem desiste de um jogo que não vale a pena ser jogado, ou de um livro que não consegue prender a atenção. João, na época, em sua incapacidade de decifrar os sinais, pensou que ela era fria, distante. Hoje, com a lucidez cruel da retrospectiva, entendeu que ele era o vazio que ela não conseguia preencher.

A Vibrante Diana: O Ápice da Mediocridade Afetiva

Mas foi com a última, a vibrante Diana, que João atingiu o ápice de sua mediocridade afetiva. Com Diana, ele foi tudo o que não deveria ser, e mais um pouco. Mentiu com a facilidade de um vendedor de ilusões, decepcionou-a com a covardia de quem não assume as consequências, manipulou com a destreza de um marionetista. Fez dela um campo de batalha para suas próprias frustrações, um espelho distorcido de suas falhas mais profundas. Diana, que o amou com uma paixão que ele, em seus momentos mais honestos, sabia que não merecia, foi a que mais sofreu. E a que, sem sombra de dúvida, mais tem todo o direito de considerá-lo um filho da puta. Ele sabia disso. Sentia o peso dessa verdade como uma âncora enferrujada no peito, arrastando-o para o fundo de um mar de arrependimentos. Não havia processo evolutivo, não havia aprendizado com os erros. A cada novo amor, ele parecia apenas refinar suas técnicas de autodestruição relacional, como um artista macabro que aprimora sua obra-prima de desolação.

Sentado na poltrona gasta, o estofamento cedendo sob o peso de seus quarenta anos e de suas memórias, com o bolo intocado e a garrafa de uísque pela metade, João olhou para o lado. Seu velho cão, Tobias, um vira-lata de pelos grisalhos e olhos cansados, dormia profundamente a seus pés. Tobias, que o acompanhava há mais de uma década, que testemunhou todos os seus amores e desamores, todas as suas alegrias efêmeras e suas misérias duradouras. Tobias, que nunca o julgou, que nunca pediu mais do que um afago na cabeça e um pote de ração cheio. Tobias, que, talvez por uma lealdade cega e inquestionável, ou por pura e simples falta de opção, continuava ali, fiel como nunca, um monumento canino à paciência e ao amor incondicional.

João sorriu, um sorriso amargo que mal alcançava seus olhos. A constatação, que antes era um sussurro incômodo, agora gritava em sua mente com a clareza de um sino de igreja: conviver com ele nunca fora uma tarefa fácil. Que Ana, Bia, Camila, Diana, e todas as outras que porventura tivessem passado por sua vida, haviam ido até onde foi possível, respeitando o limite de cada uma delas, o limite da própria sanidade. E que ele, João, nunca fora um bom companheiro. Nem para elas, nem, e essa era a parte mais cruel de admitir, para si mesmo. Nunca cuidou de si como deveria, nunca se amou o suficiente para, então, amar o outro de verdade, sem as projeções, as inseguranças, os medos. Talvez, pensou ele, a única companhia que ele conseguiria levar para a velhice fosse Tobias. E, de alguma forma estranha e melancólica, essa constatação, por mais desoladora que fosse, trazia uma estranha e resignada paz. Uma paz que vinha da aceitação de sua própria imperfeição, de sua própria e intransferível “joãozice”. O uísque desceu queimando, mas a verdade, por mais amarga, era um bálsamo. E Tobias, alheio a todas as crises existenciais humanas, apenas sonhava, talvez com um osso, talvez com a próxima caminhada, fiel em sua simplicidade canina, o último bastião de afeto na vida de João.