Antes de tudo, preciso te avisar: essa história aconteceu quando GPS era artigo de luxo e celular só fazia ligação. E, pra completar, eu sou um tipo um tanto quanto desastrado e azarado. Agora junta tudo isso a uma festa junina… deu ruim, né? Vamos à história.
Estamos falando de 2012 ou 2013, não lembro exatamente — e, sinceramente, isso pouco importa. Eu vivia entre Curitiba e o litoral: fazia especialização e trabalhava na capital, mas minha companheira e meu filho moravam perto do mar.
Era uma correria danada. Trabalhava no Parque da Ciência, em Pinhais, durante o dia. À noite, três vezes por semana, ia pra Reitoria da UFPR estudar. Durante a semana, dormia numa kitnet em Quatro Barras, bem pertinho do trabalho.
Tudo isso só era possível graças ao “bananinha”, meu Corsa amarelo 95, comprado com um consignado. Toda sexta eu descia pro litoral, direto do trabalho, e voltava na segunda bem cedo — já chegava batendo ponto no parque.
Hoje? Isso seria impossível. Nem física, nem financeiramente. Mas naquela época, em que a Dilma “quebrava o país”, eu fazia milagre com menos de dois mil reais por mês.
Bom, de vez em quando, por causa de algum compromisso, eu acabava ficando na capital. E foi assim, num clima de festa junina, que dois colegas de trabalho — irmãos, Felipe e Aline — me convidaram para uma festa organizada pela família deles.
“Festa Junina? Vou sim”, pensei. Defini que aquele seria um fim de semana em Curitiba.
Detalhe: eles moravam em Campina Grande do Sul. “Mais uma cidade?”, você pode perguntar. Mas relaxa, ali é tudo grudado: Pinhais, Quatro Barras e Campina. Algumas quadras e pronto, você já está em outro município.
Agora lembra: sem Waze, sem Google Maps. GPS para carro naquela época era um trambolho caro e impreciso. Então eles fizeram o clássico: desenharam um mapa à mão com pontos de referência. “Na mercearia X vire à direita”, “no posto Y vire à esquerda”, e a última instrução era “na farmácia Z, vire à esquerda e você verá a casa enfeitada e cheia de gente”
No dia da festa, acordei animado. Separei minha melhor camisa xadrez, comprei uma caixa de cerveja pra levar e fiquei ali, revisando o mapa, tipo vestibular.
Chegou a hora. Saí adiantado — odeio chegar atrasado e sou ansioso pra caramba. Peguei a estrada e fui conferindo cada ponto do mapa, o roteiro estava perfeitamente desenhado: Mercearia X, ok. Posto Y, beleza. Finalmente: farmácia Z.
Virei à esquerda e… bingo! Uma casa toda decorada, cheia de gente, balões, bandeirinhas. Festa rolando solta.
Desci animado, cerveja debaixo do braço, e fui pro portão. Não reconheci ninguém, mas tudo bem, podia ser gente da família. Um senhor simpático estava saindo.
— Boa noite! Eu trabalho com o Felipe!
— Entra aí! O pessoal tá por aí! — respondeu, sem pestanejar.
Entrei.
Passei pelo quintal, dei umas voltas… ninguém conhecido. Fiquei sem graça de entrar na casa, então parei ali fora, esperando ver algum dos anfitriões.
Algumas pessoas me cumprimentavam com um “oi” desconfiado. Outras nem isso, só olhavam de canto. Todos com vestimentas claramente de cristãos evangélicos. Quando falava que era amigo do Felipe e da Aline, a expressão de algumas pessoas mudou — tipo: “aham, sei!”.
Foi aí que resolvi me aproximar mais da casa.
Cheguei perto da porta, dei uma olhada e…
Uma mesa cheia de docinhos, brigadeiro, pipoca colorida, e na parede, ao lado de imagens de jesus, em letras coloridas:
“PARABÉNS, DAVI! 5 ANOS”
Silêncio.
Eu travei.
“É uma festa infantil? E eles não avisaram? Ou… eu INVADI uma festa infantil? Festa infantil de crentes! E eu segurando uma caixa de cerveja! Interagi com umas crianças, meu Deus! O que vão pensar de mim?!”
Será que eu sou um invasor de uma festa familiar?
Puxei o celular e liguei pra Aline, com o coração batendo na garganta:
— Alô? Aline? A casa de vocês é do lado de uma igreja?
— Oi, Vinícius? Não… a igreja fica na quadra de baixo. Por quê?
— Nada não… já tô chegando aí.
Desliguei e continuei com o telefone no ouvido, fingindo estar em ligação, só pra não ter que explicar pra ninguém por que eu estava fugindo da festa.
Quando finalmente cheguei na festa certa, garanti boas risadas a todos. Virei o assunto da noite.
Mas, convenhamos… quem imaginaria duas festas juninas, na mesma rua, na mesma noite, em Campina Grande do Sul?