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Noventa anos

Noventa anos

Hoje haveria festa em tua casa,
ou em alguma casa que fingisse ser tua,
porque onde estavas
tudo aprendia a ser lugar.

Viriam parentes de longe,
com vozes que eu quase não conheço,
músicas antigas atravessariam a noite,
e gente estranha, por estar contigo,
deixaria de ser estranha.

Era para ser um dia feliz.
Mas a vida, essa coisa sem educação,
adiantou-se ao convite
e sentou-se no teu lugar.

Há dois anos e meio que faltas
como falta uma luz
que ninguém sabe acender de novo.
E hoje, que farias noventa anos,
não sei celebrar senão chorando
aquilo que ainda vive em mim
por não saber morrer.

Peço, contra tudo o que penso,
que meu materialismo esteja errado;
que a tua fé, tão simples e tão firme,
tenha razão sobre o escuro.
Que em algum lugar sem relógios,
tu e o velho Tião
estejam olhando por nós
com esse cuidado antigo
que não fazia barulho.

Porque aqui está difícil, vó.
Difícil como são difíceis
as coisas sem resposta.
E eu, que tantas vezes duvidei do céu,
hoje queria apenas
que ele existisse
para te caber inteira.

Deito-me aos prantos
e volto a ser pequeno:
não o que fui,
mas o que em mim ainda espera
a tua mão na cabeça,
o teu afago calado,
essa forma de amor
que não perguntava nada
e por isso mesmo respondia tudo.

Vinícius Prado