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Poema em linha seca (para quem insiste em viver)

Viver não é linha reta,
nem curva larga de rio.
É chão que não se repete,
piso torto, passo frio.

É o tropeço no degrau
que ontem ainda era chão.
É descer com a cara e o sal,
levantar sem direção.

Não se vive sem ceder
à queda, ao caco, à rutura.
O corpo aprende a doer
com o tato da fissura.

Fracassar é a gramática
de quem finca pé e vai.
Levantar é coisa prática:
mãos no pó, suor que cai.

O mundo muda de eixo
antes mesmo de se ver.
E viver é ter despejo
no imóvel do querer.

A cada virada brusca,
o rumo perde o sentido.
Mas viver é aceitar a busca
como método do vivido.

Não há glória sem ruína,
nem linha sem interrupção.
É no erro, que se ensina
o peso exato da mão.

E se um dia a alma cansa,
numa pausa, se refaz.
Pois viver, na esperança,
é cair e seguir — sem paz.

Vinícius Prado