Para mim o dia do aniversário sempre teve dois lados, um festivo com comemorações, reunir amigos, beber, se entorpecer e celebrar a vida, o outro lado é o reflexivo, porque também é um dia que invariavelmente a gente para pra pensar na vida, o que fez até agora, as perspectivas. 2021 com pandemia, e sobretudo por estar no Brasil, o lado festivo vai ficar pra depois.
Trinta e cinco anos, pela primeira vez na vida acordo no dia do meu aniversário e penso que é grande a possibilidade de o tempo que eu vivi até agora pode ser maior do que eu terei daqui pra frente, não se trata de nenhum pessimismo melancólico, pelo contrário, constatar que as condições materiais concretas impostas pela atual conjuntura dificultarão em muito que a minha geração chegue aos 70 anos, é um fator que me estimula a viver cada vez melhor.
E por falar em “minha geração” e “viver melhor”, faço parte de uma geração que cresceu sendo formatada pela sociedade de uma forma geral com a ideia de que até os 30 anos você deveria estar com a “vida resolvida”, e que estar com “a vida resolvida” basicamente era um curso superior, um emprego estável, um carro, uma casa, casado, com filhos e de preferência com um labrador no quintal.
Ou seja, fomos formatados para buscar um padrão de vida que atendesse os interesses da “família tradicional” e da “sociedade de consumo”, além do fato desse padrão fazer com que busquemos falsas necessidades, ainda temos o fato de que “viramos adultos” mais ou menos na época que estoura uma das maiores crises do capitalismo a nível mundial, a partir da crise de 2008.
Desta forma fomos formatados para correr atrás de um padrão de vida baseado em necessidades que não são reais, e que o atual estágio de organização da economia mundial não nos permite atingir. Emprego estável na era da uberização? Casa própria? Carro? Pra quê? Pra quem? É uma lógica cruel, que faz com que a grande maioria da minha geração em algum momento caia em depressão com sentimento de frustração.
Essa concepção de modelo de vida é tão enraizada na família, na escola, na mídia, em todos os espaços de reprodução cultural da sociedade, que acabamos internalizando-a de tal forma, que mesmo quando temos consciência de que precisamos transformar a sociedade, ainda continuamos operando por essa lógica.
Eu mesmo, olhando hoje para minha trajetória, vejo que durante boa parte da minha vida, mesmo já me reivindicando comunista, tendo lido clássicos do marxismo e militando em movimentos sociais, ainda assim reproduzia e organizava a minha vida buscando falsas necessidades mirando atingir um padrão de vida que não me servia.
Reflito sobre tudo isso pra dizer que, saber que existe uma possibilidade cada vez maior de que o tempo de vida que nos resta é menor do que o que já vivemos, nos ajuda a ter consciência da efemeridade da vida, e entender que não devemos correr atrás de padrões que não são os nossos, ajuda utilizar melhor esse tempo que temos.
Por fim concluo o lado reflexivo desse aniversário satisfeito com o que vivi até agora, e mesmo que a conjuntura não nos permita planejar a longo prazo para onde vamos, eu tenho cada vez mais convicção de como quero ir, e ciente da brevidade da vida, cada vez mais quero viver melhor o agora.