Menu fechado

Vários tons de cinza

Deslizo o dedo pelo abismo luminoso
como quem procura um fósforo num quarto alagado.
perfis desbotados, sorrisos de papel molhado,
olhares ocos que não dizem nada.
tudo parece cinza —
um cinza sem coragem, sem pecado,
um cinza que fede a tédio e a domingo sem bar aberto.

A falta que você faz
é um buraco teimoso no estômago,
um cão que não para de roer minhas costelas.
eu sei que uma hora passa —
sempre passa, sempre escorre —
como garrafa vazia rolando pelo chão
depois do último gole e do primeiro soluço.

Mas até lá
eu choro feito um idiota que perdeu a carteira,
lamento como um bêbado abandonado na calçada
e encho o copo como quem tenta remendar a alma
com fita adesiva e bravata barata.

No fim, amor,
o que mais dói nisso tudo
é saber que poderíamos ter evitado essa miséria inteira —
bastava um gesto, um passo,
um telefonema fora de hora,
um “fica” mal sussurrado.

Mas escolhemos o silêncio.
e agora eu deslizo o dedo
num mundo onde todas as mulheres
parecem sombras deformadas da sua ausência.

E você, bem,
você continua sendo
a única cor que esse deserto miserável
parece incapaz de esquecer.

Vinícius Prado