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Trocando ideias com o Cavalo Babão

— E aí, véio, cuspe ou poesia? — perguntou ele, encostando a testa na borda do chafariz. O Cavalo Babão relinchou com água da chuva. A pinga já era esgoto na veia, o poeta encostado no monumento como um cachorro triste.

— Arte? — resmungou o bicho. — É cuspir bonito no papel e chamar de poema.

— Ou mijar na parede e assinar. — completou o bêbado.

— Arte é o que sobra depois da vergonha.

— É o que resta quando a mulher vai embora.

— Ou quando morre o cachorro.

— Arte é o que sobra quando a alma falha.

Falavam.

Aos passarinhos. Aos bêbados sem plateia.

— Fracasso é quando o mundo nem te nota.

— Não, é quando te nota e ri.

— Ser poeta em Curitiba é como mijar contra o vento.

— Sempre volta na tua cara.

— Fracasso é o pai invisível de todos nós.

— E o filho que não nasce nunca.

— Juventude?

— Lembro.

— Eu também.

— Tinha pernas e promessas.

— Hoje tenho varizes e contas.

— Juventude é aquilo que a gente gasta com quem não merece.

— E perde sem perceber.

— Política? — perguntou o cavalo, cuspindo.

— Palhaço sem circo.

— Teatro sem público.

— E o ingresso é caro.

— Paga-se com esperança.

— Os canalhas sempre dormem com a barriga cheia.

— E sonham com a tua fome.

— O fim do mundo?

— Já veio, ora.

— Só esqueceram de avisar.

— A cada segunda-feira.

— A cada amor que vira lembrança.

— A cada vez que ninguém responde tua mensagem.

— A cada morte não noticiada.

— Amores?

— Ah.

— Silêncio.

— Alguns ainda ardem, como pinga ruim na garganta.

— Outros viraram música brega no rádio do táxi.

— Todo amor é um esboço de suicídio.

— E todo término é uma ressurreição forçada.

Encostaram-se. O poeta já dormia em pé.

O Cavalo soltou um jato triste.

— Sabe, véio… — sussurrou o bicho, com voz de ferrugem — a vida é uma infelicidade contínua com pequenas interrupções de felicidade.

O poeta sorriu, já sem dentes.

— Então que venham as interrupções.

— Que a gente as chupe até o caroço.

— E depois cuspa na cara do destino.

— Tim-tim.

— Tim-tim.

E o chafariz seguiu babando.