Todo relacionamento amoroso quando está começando, chega naquele ponto em precisa de uma definição, vai virar namoro ou vamos nos enrolar até perder o “time”? É sempre um ponto da relação muito delicado e que gera ansiedade em todos os envolvidos, e com um tempero de cobranças externas, sempre tem um amigo que faz a pergunta constrangedora em público “e aí estão namorando?” e ficam os dois com cara de paspalhos.
Certa vez, estava em um relacionamento neste exato ponto quando eu e minha ex-futura ex-namorada querendo um mostrar que era mais descolado e desconstruido que ooug outro, tivemos uma conversa, sobre como na nossa sociedade extremamente machista, esse momento fica na mão do homem, é histórica e socialmente construído que o ator ativo dessa situação é o homem, a mulher basta esperar passivamente a tomada e decisão do homem sobre quando o relacionamento vira uma namoro. Eu já tinha ouvido repetidas vezes “e aí Vinícius, já pediu ela em namoro?”, ela nunca ouvira tal cobrança.
Como a gente acha que nossa relação.e era forte e subversiva (a gente sempre acha que é né?), decidimos subverter essa ordem, combinamos que a decisão seria dela, se um dia ela avaliasse que relação devesse virar um namoro, ela que deveria tomar a decisão. Os prós e contras de cada papel foram invertidos nesse acordo, eu não teria a responsabilidade de tomar a decisão, mas não tinha controle quando e se ela seria tomada, e ela passou a ter o controle da situação, mas também com a responsabilidade de não perder o “time” e estragar tudo.
Eis que algumas semanas se passam, e chega o aniversário dela, me convidou para um churrasco (que eu tive que assar) na casa dela, conheci família, amigos e amigas dela que não eram da nossa roda em comum, foi um dia divertido, todo mundo gostou de mim, mesmo o pai dela que me chamou o dia todo pelo nome errado (até hoje não sei quem é o tal de Gustavo!), modéstia a parte eu sei ser agradável quando quero.
Ao final da noite, após todos irem embora, aquela ajeitada na bagunça, banho pra tirar o carvão que estava impregnado em meu corpo, quando entro no quarto ela tinha caprichado no clima, só a luz dos abajures, um perfume gostoso no ar, música de fundo, ela já deitada toda produzida e cheirosa, quando deito ao seu lado, ela diz “tenho algo para você!”, vira pro lado e pega na cabeceira um bilhete e me entrega.
Tudo perfeito, não fosse o meu astigmatismo, eu abro o bilhete e não consigo enxergar uma só letra, obviamente eu não sou estupido, deduzi do que se tratava, mas fiquei me esforçando pra ler, podia ter alguma ‘piada interna” (e tinha), queria responder a altura, foram frações de segundos de pura tensão, pois eu sabendo o que era queria dizer sim logo, mas queria responder no contexto do que estava escrito, e comecei a ficar nervoso. Ela por outro lado, começou a ficar nervosa também, deve ter pensado “só falta esse filho da puta me dizer um não agora, aqui”.
Enfim, quebrei o clima do romantismo falando “se for um pedido de namoro eu aceito, mas precisa ligar a luz para eu ler esse bilhete”. Depois deste dia, só tiro os óculos após deitar, não quero ser surpreendido por um bilhete à meia luz sem eles ao lado.