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Quando morre um amigo

Crônica dedicada à passagem do amigo Renan Berlim Pazinatto

Quando morre um amigo

A dor de perder um amigo dói diferente. Não é como perder um pai, uma mãe, um tio, uma tia. Essas dores, ainda que profundas, vêm acompanhadas de uma expectativa silenciosa que a vida nos impõe: em algum momento, a gente sabe — ainda que nunca aceite — que terá que se despedir. Perder um filho, dizem, deve ser a dor mais brutal, um rasgo que nem cabe em comparações. Mas perder um amigo… ah, isso atinge um lugar específico da alma. Um canto onde mora o riso fácil, as confidências trocadas de madrugada, os planos absurdos para o futuro e as certezas tolas que só a juventude se permite ter.

Quando somos jovens, acreditamos ter todo o tempo do mundo. A vida parece um livro de páginas infinitas e cada capítulo é uma nova possibilidade. Nos julgamos invencíveis, imbativos, imortais. E os amigos estão ali, como parte da nossa liga dos heróis — tão fortes quanto a gente, tão prontos para tudo quanto a gente. Rimos do perigo, debochamos da morte. Criamos laços achando que eles durarão para sempre, sem perceber que o sempre é uma promessa frágil.

Até que, um dia, o telefone toca, a mensagem chega, a notícia cai como um raio: “Fulano morreu.” Assim, seco. Inaceitável. E nesse instante, alguma coisa dentro da gente quebra.

Como assim morreu? Mas ele era da nossa idade. Mais novo até. Não fazia parte do combinado.

Nossa trupe era imortal. E de repente, somos confrontados: não somos invencíveis. Nem como amigos somos perfeitos. O tempo passou e nos afastamos. Ficamos de marcar e não marcamos. Vimos fotos, curtimos posts, mas não ligamos, não mandamos mensagem, não estivemos presentes. E agora, não tem mais tempo. Só o silêncio.

Perder um amigo é lembrar que a nossa memória está ficando mais povoada do que os encontros atuais. Que aquela nossa turma vai resistindo só dentro da gente. E que, se não cuidarmos, seremos apenas guardiões de fantasmas, lembrando dos sorrisos de outrora enquanto o presente vai escapando pelas mãos.

Nessas horas, vem o peso da mortalidade e a pergunta que martela: o que estamos fazendo com nossas vidas? Que tipo de amigos estamos sendo? Para quem temos estado disponíveis? Estamos vivendo ou só sobrevivendo?

A morte de um amigo nos arranca o chão e nos devolve à realidade: somos humanos. Imperfeitos. Mortais. E justamente por isso, o que temos de mais precioso é o agora. O abraço que damos, a mensagem que mandamos, o tempo que escolhemos dividir com quem amamos. Porque a vida não espera, e às vezes, a última risada dividida com um amigo pode ser a última mesmo.

Então que a gente não se esqueça: viver é urgente. E ser amigo, de verdade, também.