Saí daquela sala de provas do DETRAN-PR com a sensação de quem acaba de vencer uma batalha épica, ou talvez, de quem finalmente pagou uma dívida antiga e impagável com a sociedade. O papel em minhas mãos confirmava: apto. Apto a renovar a carteira, apto a dirigir novamente, apto a, quem sabe, retomar as rédeas da minha vida sem a sombra de um litígio burocrático.
Cinco anos. Mais de cinco anos se passaram desde aquele fatídico dia em que o bafômetro e a Lei Seca me abraçaram com a frieza da lei. Cinco anos de recursos, protelações e uma relação com o DETRAN-PR que, confesso, foi mais duradoura e, em certos aspectos, mais intensa que muitos dos meus relacionamentos amorosos.
E por falar em relacionamentos, um aviso: os nomes aqui são fictícios, claro. Afinal, já sofreram o bastante sendo minhas namoradas para ainda terem seus nomes reais expostos em uma crônica de gosto duvidoso. Mas, sigamos, porque a vida, e a burocracia, não param.
Quando a sirene da viatura ainda ecoava em meus ouvidos e o número do bafômetro me assombrava, eu namorava Celeste. Celeste, uma moça que, sem saber, estava prestes a testemunhar o início de uma saga que superaria, em longevidade e complexidade, o nosso próprio romance. O recurso contra a multa foi protocolado, e a máquina burocrática, com sua lentidão quase poética, começou a girar. Celeste, coitada, logo partiu, não pela minha distração legal, mas por uma série de outros defeitos meus. Ela se foi, e o recurso ficou.
Enquanto o processo do DETRAN-PR se arrastava com a dignidade de uma tartaruga reumática, meu coração, menos paciente que a justiça, seguiu em frente. Celeste virou passado, e em seu lugar surgiu Aurora. Aurora, que talvez tenha pensado que o maior desafio do nosso relacionamento seria as minhas indecisões como sobre qual sabor de pizza pedir, mal sabia que estava competindo com um litígio administrativo. O recurso, fiel e constante, continuava lá, firme como uma rocha, enquanto Aurora, como um verão passageiro, também se foi.
E então veio Bruna. Ah, Bruna. Ela chegou quando o recurso já era quase um membro da família, um parente distante, mas sempre presente, nas conversas e nos pensamentos. Foi durante o nosso namoro, no auge da minha esperança de que a burocracia tivesse um coração, que a notícia chegou: recurso negado. E, com ele, a inevitável suspensão da carteira. Enquanto eu cumpria a pena, Bruna estava lá, testemunha silenciosa da minha penitência automotiva. Ela me acompanhava, com uma paciência que eu, francamente, não merecia. Bruna era como ter um oásis no meio do deserto burocrático da minha vida sem volante. E, por um tempo, eu realmente acreditei que o oásis seria permanente, mais permanente que a própria suspensão.
Mas, como tudo que é bom e, aparentemente, com tudo que é comigo, Bruna também se foi. E, ironicamente, o recurso da Lei Seca, que havia sido negado e cuja pena eu já havia cumprido durante nosso tempo juntos, parecia ter deixado uma marca menos profunda que a ausência dela.
Agora, com a carteira de motorista finalmente retomada, faço um balanço. Três namoros se foram como folhas secas levadas pelo vento. Mas o recurso? Ah, o recurso! Ele permaneceu. Resistiu. Sobreviveu. Foi mais sólido, mais duradouro, mais presente que qualquer uma das minhas relações afetivas recentes. Uma constatação amarga, talvez, mas inegavelmente verdadeira.
Em um momento de epifania (ou seria desespero?), concluo: “Talvez eu seja melhor infrator de trânsito que namorado.” Uma frase que, se dita em voz alta, faria minha psicologa erguer a sobrancelha. Mas, no fundo, há uma verdade cruel. A paixão pela infração, a dedicação ao litígio, a resiliência em enfrentar a burocracia – tudo isso eu demonstrei com maestria. Já no campo amoroso, bem, os resultados falam por si.
Alguns amores passam como aquela baforada no bafômetro na beira da estrada, já outros são aquele recurso que eu não consegui reverter, aquela suspensão que ainda me pesa, mesmo com a carteira de volta.
Que sirva de lição, ou de piada, ou de ambos. E que as futuras pretendentes saibam que, talvez lidar com um processo administrativo no DETRAN-PR lhe traga mais estabilidade e paz do que se relacionar comigo.